terça-feira, 3 de julho de 2007

O TEATRO DE EUGENIO BARBA

PUC - Sociologia 1994

RESUMO:
O teatro se manifesta de múltiplas maneiras e captá-las oferece riscos e dificuldades, no entanto neste trabalho procuramos seguir o pensamento de Eugênio Barba e oferecer novas perspectivas para a abordagem da teoria teatral, particularmente desde um ponto de vista da antropologia teatral.

INTRODUÇÃO
Premissas - Quem sou Eu ?.Advertência..Posições Iniciais.........O Teatro é uma Ilha..........
PARTE 1
Dos diferentes tipos de Teatro.........Antropologia Teatral - A questão da pré-expressividade.Cotidiano / Extra-cotidiano.......O Equilíbrio com Desequilíbrio.........
PARTE 2
Energia / corpo-mente................A Energia para o Ator: um "como" e não um "que".
PARTE 3
Edgar Morin e a Lógica das Máquinas.....................Breve histórico do Processo Civilizatório...............1. A variável Sapiens..................2. A Era Planetária......................3. A era das Máquinas...............
4. CONCLUSÃO
Pontos Básicos.......
Edgar Morin

INTRODUÇÃO


1. Premissas - Quem sou Eu ?

Desde cedo, Eugenio Barba, aprendeu a observar com acuidade. O andar, o movimento das mão, maneiras de olhar, etc. Esta faculdade surgiu, nos diz, por ser basicamente um estrangeiro, na vida e na arte. Na vida, pois como Italiano de origem, veio ainda cedo, 17 anos, a emigrar para a Noruega, e sua dificuldade com a língua e os costumes, levaram-no a desenvolver a habilidade de entender sem o recurso das palavras, o que as pessoas que o circundavam sentiam: repulsa, amor amizade, compaixão... Ele é um estrangeiro na arte, porque como veremos, preservou este distanciamento que a vida o conduziu, em seu ofício, o teatro. O avalia com olhos que o distanciam do olhar tradicional. Postulamos, e ao longo de nossa análise tentaremos demonstrar, que este viés empírico, o infortúnio da saída de sua terra natal, Itália, aliada a procura existencial ( o quem sou Eu ?) define seu trabalho e suas idéias.Outra vantagem, é que esta baliza, questão existencial, nos servirá de fio condutor e permitirá ao longo do texto manter uma certa coesão, principalmente quando estivermos detalhando o conceito que motivou este trabalho, o conceito de Antropologia Teatral.Assim, em resumo, seu estranhamento devém, como veremos, de diferenças tanto práticas quanto teóricas. Mas uma pergunta ordenou este estranhamento: Quem sou Eu ? ... A procura por uma resposta a esta indagação resultaram na base de sua vida e de sua arte.
2. Advertência.
Como pudemos ver em nossa consideração inicial, utilizaremos como fio condutor, para compreender os conceitos de Eugenio Barba, sua postulação existencial principal o Quem sou Eu ? Mas apenas para criar um pano de fundo, já que na frente, iluminado estarão seus conceitos práticos. Daqui pode-se inferir que o teatro é uma questão que se coloca como existencial, referente a identidade do ator. Veremos que esta identidade irá desempenhar um papel fundamental em sua Antropologia Teatral. De outro lado, devemos ressaltar que o mundo cênico representa um mundo onde o nosso cotidiano, já não mais serve para exprimi-lo. Como consequência, nossa linguagem cotidiana distorce a realidade cênica. Aprender teatro hoje, é aprender não só uma nova língua, mas uma nova forma de pensar a vida. Como Barba gosta, o mundo artístico implica em leis artísticas, assim como o mundo sub-atômico implicam leis atômicas. A grande dificuldade é que comumente se utilizam categorias mentais do universo cotidiano para tentar entender o universo cênico, isto traz grandes erros. Devemos salientar que supomos um conhecimento básico do mundo cênico de suas práticas e métodos pois sem isto nossas colocações sobre a obra de Barba são ininteligíveis. Conseqüentemente, Barba escreve para atores e diretores de Teatro.Eugenio Barba é basicamente um teatrólogo, pois é graças ao seu trabalho no grupo Odin, dinamarquês, que veio ter reconhecimento internacional. Não é propriamente um teórico, mas um prático que reflete sobre sua ação, mais precisamente sua profissão, o teatro. Ao longo de sua vida, foi definindo os conceitos que apresentaremos, mas sempre deveremos ter em mente, que são conceitos práticos, podem assim sofrer mudanças, não se ordenam num todo coeso, um sistema. Contudo existe um rigor , o qual tentaremos nas passagens posteriores colocar , criando a imagem do primeiro plano, a linguagem própria ao teatro, e do plano de fundo, a redefinição da identidade profissional.
3. - Posições Iniciais
Eugenio Barba foi fortemente influenciado por uma prática teatral que chamaremos de vanguarda. Um teatro que reage a uma forma de organização da cultura teatral . Vejamos mais detalhadamente. No Ocidente, particularmente na Europa, a arte da representação sofre um processo histórico, que culmina como uma organização comercial, pertencente ao setor terciário, ordenada sob a racionalidade do lucro, inserida num contexto do capitalismo avançado, onde se torna como outros setores, voltada para o consumidor utilizando-se de merchandising, ou seja, o teatro veio a se inserir com o tempo, dentro de um quadro mais amplo, que veio a se chamar de indústria cultural.Inserida no Sistema Econômico Capitalista, esta indústria cultural serve como pilar de manutenção do Sistema , ao difundir uma práxis coerente com o mesmo, aqui queremos dizer, não é do Sistema só porque é mercantil, mas sobretudo por preservar o processo ideológico, processo de representação do mundo, nos moldes tradicionais, (veremos mais adiante com detalhes).
4. O Grupo de teatro é uma ilha...
Barba ao longo de sua vida luta para criar suas "ilhas", "aldeias", onde espera preservar uma idéia de fazer teatro, no qual a identidade do ator e de seu grupo estão em primeiro plano, em oposição ao teatro tradicional, produto pasteurizado, consumido em massa, supondo um público também pasteurizado, o que aliás a Europa como centro do capitalismo é um exemplo ótimo, onde o ator é funcionário de uma companhia teatral, nos moldes de um operário assalariado, onde sofre do mesmo processo de alienação ( Perda do conhecimento global de seu ofício, inversão de posição de sujeito para objeto dentro do contexto cênico, etc.) Eugenio Barba, vem conseqüentemente, na mesma direção dos grandes atores e diretores do século XX, que reagiram a este processo que culminou com inserção completa dos atores e de sua arte , na maioria, num sistema onde perdem sua identificação ou raiz, processo semelhante porque passaram o operariado no mundo industrial. Indentifica-se com outros grupos de "vanguarda" pelo mundo afora, tentando preservar a própria tradição de seu ofício. Por isto mesmo, vanguarda não é derrubar ou destruir ou combater simplesmente, mas também recuperar um tipo de representação que foi deslocado para um campo marginal e que bem pode ser o teatro clássico, no sentido mais restrito possível ( pré-indústria cultural ?)Barba nos diz "... vanguarda pode ser também , aqueles grupos que ao longo da história do teatro, reagiram contra a tradição, indo inspirar-se nos clássicos, no teatro grego, ou romano." (1) Também tentaremos também mostrar que vanguarda para Barba está relacionada a um tipo de teatro revolucionário, como ele nos diz, por analogia, como o mundo nosso cotidiano esta para o mundo atômico . De nosso mundo tão conhecido, tão acessível, para um mundo que exige um novo aparelho conceitual, uma nova forma de pensar. O Teatro de Eugenio Barba tem a tendência de se distanciar do teatro tradicional, como distante estão ..." as idéias de Newton em relação as de Bohr " (2).
Veremos que o nosso tema Antropologia Teatral, visa enfeixar os diferentes conceitos e princípios, que permitem, segundo Barba , dotar o ator, enquanto objeto principal de suas preocupações, da capacidade de controlar seus instrumentos, de "vestir ou despir-se" de seus personagens conscientemente e de um modo belo e atraente. Ou seja dotá-lo de técnica e conceitos que o aparelhem a fazer frente a uma realidade que de um lado aliena o ator ( enquanto operário no teatro), gerando em seu trabalho uma mudança de valor , de um ator que reproduz uma arte que Barba contesta, para um ator dotado de "Identidade". Superando assim os limites de uma perspectiva que se pretendesse apenas resumir algumas técnicas cênicas. Em resumo a técnica teatral será o centro de nosso trabalho e estará enfeixada como parte da Antropologia Teatral. Veremos a seguir como ele organiza esta mudança. Por fim na parte 2 mostraremos como as considerações de Barba se relacionam com a função da Antropologia para Edgar Morin. Devemos antecipar que Morin procura definir parâmetros globais para a Antropologia, que coincidem com a análise que Eugenio Barba efetua e propõe. Ou seja o trabalho de Eugenio Barba sobre a prática Teatral e sua posição frente o teatro tradicional esta coerente com as conclusões de Morin quando critica o pensamento realista em sua versão analítica.

PARTE 1


Inicialmente procuramos demonstrar que o sentido do teatro que Barba propõe tem como pano de fundo, uma crítica a perspectiva da indústria cultural estabelecida nos núcleos mais avançados , nos centros culturais mais importantes. Não propõe uma solução geral, mas uma maneira de viver (o ator). Daqui para frente, entraremos em seu trabalho prático, para vermos como sua "revolução " se articula.
1. Dos diferentes tipos de Teatro .
"A Antropologia Teatral é basicamente um estudo sobre o ator e para o ator"... onde pode-se distinguir duas diferentes categorias de atores que no modo de pensar normalmente se identificam com "Teatro Ocidental" e "Teatro Oriental."(3) Uma arte sob regras definidas e outra aparentemente livre destas. Barba prefere uma outra distinção, imaginária, mais abrangente: Pólo Sul e um Pólo Norte. Sigamos as colocações de Barba sobre o ponto de vista da liberdade de interpretar...
" O ator do Pólo Norte é aparentemente menos livre. Modela seu comportamento cênico segundo uma rede bem experimentada de regras que define um estilo ou um gênero codificado. Este código da ação física ou vocal, fixado em uma peculiar e detalhada artificialidade (seja o balé ou um dos teatros clássicos asiáticos, a dança moderna, a ópera ou mimo) é suscetível de evoluções e inovações."
e a seguir...
" No princípio, entretanto, todo ator que tenha escolhido esse tipo de teatro, deve adequar-se a ele...aceitando um tipo de pessoa cênica estabelecido por uma tradição. A personalização será o primeiro sinal de sua maturidade artística"
Vemos já nesta definição de Teatro do Pólo Norte, uma forma de pensar a arte cênica que modifica a personalidade do ator, de modo que se transforma em um tipo cênico pré-estabelecido. Um tipo de pessoa cênica guiado pela tradição. A personalização deste tipo cênico , será o início da etapa de maturidade para o ator, e esta perda da personalidade não representa um prejuízo, pois permite ao aprendiz expandir-se indo além dos limites de sua própria experiência comum. Ao iniciar o seu trabalho, o ator veste-se com os traços do personagem, e por isso se pode dizer que se trata de uma personificação, que será tanto mais verídica, quanto mais rica em elementos for desenvolvida. Assim, interpretar é criar personas, máscaras, que se afiguram como verdadeiras no contexto cênico. Tudo deve ocorrer para o espectador, como se fosse o mais real possível, melhor dizendo, o melhor possível, pois a figura representada sob estas condições acaba por ficar melhor do que uma suposta figura real que serviu de inspiração. O grande ator cria personas que aos olhos do espectador parecem mais críveis do que a própria realidade.Vejamos o seu oposto: o ator do Pólo Sul que corresponde como vimos ao Teatro do Pólo Sul.
"O ator do Pólo Sul não pertence a um gênero espetacular caracterizado por um detalhado código estilístico. Não tem um repertório de regras taxativas a respeitar. Deve construir ele mesmo as regras sobre as quais apoiar-se. Inicia sua aprendizagem a partir dos dotes inatos de sua personalidade.
Usará como ponto de partida as sugestões que derivam dos textos que representará, das observações do comportamento cotidiano, da imitação no confronto com outros atores, do estudo dos livros e dos quadros, das indicações do diretor. O ator do Pólo Sul é aparentemente mais livre , mas encontra maiores dificuldades ao desenvolver, de modo articulado e contínuo, a qualidade de seu artesanato cênico."
Podemos ver que se trata de uma categoria de ator, e não uma diferença regional, ou cultural. Este ator do Pólo Sul pode estar agora em qualquer local , Ocidente ou Oriente. Este ator cria seus personagens empiricamente, isto é sem qualquer fundamentação na tradição. Utiliza-se de recursos pessoais, e geralmente não freqüentou qualquer escola dramática. Normalmente esta categoria de ator esta presente em toda parte. Diríamos que seu trabalho padece de uma coerência cênica que só pode ser obtida com maior elaboração, o que não quer dizer que não obtenha bons resultados. Tudo irá depender do ator, e de sua destreza pessoal, ficará o resultado a sorte de um dia inspirado, e em geral sua performance pode sofrer abalos, porque podem lhe faltar as imagens pessoais para compor seu personagem. Faltaria neste caso uma maior continuidade, melhore instrumentos cênicos.
Barba agora compara a ambos....
" Ao contrário do que parece à primeira vista, é o ator do Pólo Norte que tem maior liberdade artística ao passo que o ator do Pólo Sul permanece facilmente prisioneiro da arbitrariedade de uma excessiva falta de pontos de apoio. A liberdade do ator é mantida no interior do gênero ao qual pertence, e seu preço é uma especialização que torna difícil a saída do território conhecido.
O ponto central desta comparação esta na existência ou não de um conjunto de regras cênicas definidas para o ator atuar. Não é puramente um oposição simples, ter ou não ter regras, para atuar, mas na concepção distinta do que significa atuar. As implicações que esta definição irá desdobrar levará a uma profunda diferenciação (basicamente temos uma dificuldade que decorre de que a linguagem que exprime o mundo cotidiano não serve para o universo cênico, o melhor seria ter sempre claro que corpo, por exemplo, tem significados distintos para um e outro mundo). Voltemos. Esta suposta restrição, de fato permite vôos muito mais altos, pois já esta assegurada um repertório de experiências de gerações, os quais podem ser assimiladas e mesmo ultrapassadas, mas sempre de uma base muito maior do que aquela que o indivíduo pela mera observação teria, ou seja , a riqueza do material que decorre da adesão a esta tradição compensa em muito, as supostas restrições que a primeira vista existiriam, principalmente uma suposta perda de liberdade. Por outro lado é sabido que a simples observação, imitação, não permite ao ator executar papéis mais complexos, pois lhe faltariam estruturas que só são possíveis com muito treinamento e discussão ( veja-se a seguir equilíbrio e postura). Este processo de adoção de um estilo, implica excluir outros, e tomá-lo como se fora o único, ou pelo menos durante o processo de aprendizagem, não se influenciar por outros o que poderia ser fatal, por serem incompatíveis. Adotar este estilo, "convenção", implica que seu estilo escolhido de atuar, deve revestir de absoluto, como dito é convenção para o analista mas é absoluto para o ator. Por conseguinte , enquanto assimila uma certa técnica, deve levá-la ao ápice sob pena de se tornar uma caricatura de técnicas. Ao desenvolver plenamente uma técnica, o ator criará um eixo para si que o habilitará a ser mesmo independente deste ou aquele estilo, pois a base para criação de personagens, o ator já terá.Esta é uma discussão antiga, mas podemos tomar como um fato que o progresso em qualquer terreno, sempre foi construído tendo por base o esforço anterior empreendido, aprender por esforço próprio, só de "olhar", é limitado e como nos coloca Barba, muito mais operoso, e do ponto que interessa, para o ator, muito mais restritivo.Todas as técnica artísticas, enquanto convenções sobre o modo de atuar, são como princípios, normas que na maioria das vezes se parecem, mas diferem nos resultados que produzem, em suas obras. Veremos a seguir existirem alguns princípios comuns na arte de representar, princípios universais que no contexto do atuar é denominado por Eugenio Barba de pré-expressividade.
2. Antropologia Teatral - A questão da pré-expressividade.
Eugenio Barba, pensamos, utiliza o termo Antropologia Teatral de uma maneira genérica querendo mais definir um comportamento de um estudioso diante da problemática da ação de representar do que criar uma nova área acadêmica. Novamente ele cunha esta expressão de sua vivência teatral. Vejamos um breve histórico. Após ter assimilado com se amigo Jerzy Grotowski os conceitos e técnicas básicas de um teatro crítico, de laboratório, que ele denomina de vanguarda, Barba deixa Varsóvia em direção à Ásia. Ali, viaja seguidamente pela China, Índia, Tailândia, Bali, Indonésia, onde viria a refinar as idéias acima expostas, das diferentes categorias de encenar, bem como se depara com novos recursos cênicos, que como exporemos o levarão a repensar o próprio conceito de Teatro. Na Ásia encontra uma arte tipicamente clássica, nos moldes do "Pólo Norte" quanto elementos atuando no mais perfeito sentido de "Pólo Sul".Percebe no movimento em cena de um artista Nô, Japonês, um sutil movimento das mão e acompanhando os dedos observa o equilíbrio e suavidade dos movimentos, impossíveis de serem obtidos sem anos de exaustivos treinamentos. (Como consequência um ator do "Pólo Sul", jamais atingiria este nível).Em seus diálogos descobre um intenso treinamento de equilíbrio postural , da posição da coluna em relação ao tronco, do leve arquear dos joelhos, reforçando este desequilíbrio, e remetendo o peso do corpo para a base do pé. Observou que algo parecido ocorria com seus atores também. Lembrou-se das aulas de Teatro que assistira em Copenhague, e das aulas sobre o caminhar, a procura de um novo equilíbrio, que deveria ser o utilizado pelo ator, diferentemente do andar comum. Com o passar dos anos, chamou este momento que antecede a interpretação de pré-expressividade. Anterior a expressão, que permite a expressão ocorra sem cortes, límpida e cristalina, este momento é comum a todas as escolas e tradições cênicas. O equilíbrio corporal será assim o seu primeiro princípio. Contudo é preciso dispor as várias técnicas num vetor teórico, a saber a diferença entre o saber cotidiano e o extra cotidiano (teatral).
3. Cotidiano - Extra-cotidiano.
Vimos que anterior a expressão cênica Barba constatou elementos, princípios que se repetem, que são objeto da Antropologia Teatral. O mais importante é o princípio do equilíbrio. No entanto uma distinção analítica se faz necessária para articular a situação particular que vive o ator. Como sua ferramenta é o corpo, é preciso distinguir o uso que nós fazemos diariamente do uso específico que o ator faz. O uso cotidiano do uso Extra-cotidiano (cênico).O uso natural, nosso, do corpo, segue-se o uso cênico, obviamente que o nosso uso não é puramente natural, mas como nos diz Barba cultural. Assim temos o uso cotidiano do corpo regido por padrões culturais, e o uso Extra-cotidiano, neste caso do teatro, regido por padrões que ele Barba retira da tradição cênica bem como desenvolve em laboratório. No caminhar, falar, sorrir, chorar, cada um executa inconscientemente, seguindo padrões culturais, que podem ser compreendidos historicamente. A técnica, justamente diferencia o ator do homem comum mesmo que estejam ambos executando uma ação equivalente. Suponha que se apresente usando nada mais do que uma simples túnica, o ator sem dizer nada, dotado de técnica já impressiona. Brilha aos olhos diferentemente. Artificial porém belo. Isto ocorre devido ao uso técnico do corpo. Mas não nos antecipemos. Atentemos para as palavras do texto Barbiano sobre o assunto. Barba...o cotidiano e o Extra-cotidiano.
" No contexto cotidiano a técnica do corpo esta condicionada pela cultura, pelo estado social e pelo ofício. Em uma situação de representação existe uma diferente técnica do corpo. Pode-se então distinguir uma técnica cotidiana de uma técnica extra-cotidiana "...
e a seguir...
"As técnicas cotidianas são muito mais funcionais, não pensamos muito nelas...nos movemos, sentamos, carregamos... com gestos que acreditamos naturais mas que em vez disso, são determinados culturalmente... o primeiro passo para descobrir quais podem ser os princípios do bios cênico do ator, a sua "vida", consiste em compreender que as técnicas cotidianas se contrapõe técnicas extra-cotidianas que não respeitam os condicionamentos habituais do uso do corpo"(5)
Ou seja, o ator deve compreender esta diferença cotidiano- extra-cotidiano, para poder criar seu bios, corpo cênico , dando assim vida a seu personagem. Sem esta base sua criação, seu personagem esta sujeito a ser uma caricatura bizarra. Se estivéssemos falando de uma construção teríamos a obra executada por um sujeito prático e uma obra criada por um engenheiro com conhecimentos de estilo arquitetônico. Quem não observou isto no dia a dia e já não percebeu na simples divisão dos ambientes uma grande diferença ?A técnica extra-cotidiana foi desenvolvida a séculos e refinada pelo estudo e a pesquisa. No Teatro esta técnica esta muito refinada. Exige uma concentração e desgaste imensos. Fosse possível transpô-la para o plano prático o nosso desgaste seria absurdo. Nosso uso cotidiano, supõe a máxima economia de energia enquanto que o uso cênico é exatamente o oposto o máximo dispêndio de energia para o mínimo movimento.As técnicas cotidianas se embasam na tradição cultural cotidiana e como vimos, em nada são naturais. Dobrar-se ao cumprimentar alguém é um ato de educação desenvolvido dentro do mundo social e fora dele não faria sentido, estender as mão , etc. Compreendido isto deveremos partir para a noção de equilíbrio que nos permitirá fazer a diferença. Em cena o equilíbrio corporal é modificado radicalmente...( princípio pré-expressivo).
4. O equilíbrio com desequilíbrio
" Esse princípio constante se encontra em todas as formas codificadas de representação: uma deformação da técnica cotidiana de caminhar, de deslocar-se no espaço, de manter o corpo imóvel. Essa técnica extra-cotidiana baseia-se na alteração do equilíbrio. Sua finalidade é um equilíbrio permanente instável. refutando o equilíbrio natural, o ator intervém no espaço com um equilíbrio de luxo: complexo, aparentemente supérfluo e com alto custo de energia.
"Pode-se nascer com graça ou com o dom do ritmo, mas não com o dom do equilíbrio instável"( Etienne Decroux, paroles sur le mime, Paris, Gallimard, 1963, p. 168.)
Este princípio do equilíbrio instável, não é natural de modo algum. Pode-se ter o maior dom, mas este equilíbrio particular só se obtém dentro de uma aprendizagem mais refinada. E é este equilíbrio postural diferenciado que por si só garante uma expressividade cênica impressionante. Este equilíbrio de luxo é formalização, estilização, codificação. Assim sendo, apenas inserido em uma tradição cênica é possível assimilar este equilíbrio. Sendo um momento da pré-expressividade , a técnica do equilíbrio instável ordenada pelos conceitos de técnica cotidiana e extra-cotidiana produzem resultados cênicos espantosos. Vejamos o exemplo que Barba recolheu de sua viagem ao Japão. Atentemos para este uso especial do corpo e a que ponto pode chegar o ator e o grau de refinamento que se pode conseguir, sua delicada expressão cênica, a qual citamos por se tratar de uma profunda reflexão sobre a noção de representação implícita e explícita !
" ...as técnicas extra-cotidianas, que tem a ver com a pré-expressividade, caracterizam, mesmo antes que esta vida(cênica) queira significar algo..."
e sigamos...
... "Será que existe um nível de arte do ator no qual ele esteja vivo, presente mas sem representar algo ou alguém? E contudo há atores que usam sua presença cênica para representar sua ausência. Parece um jogo de idéias e no entanto é uma figura do teatro japonês." Até aqui sempre temos em mente o ator representando algo ou alguém. Quando o ator entra em cena, procuramos rapidamente identificar o que ou quem o ator representa. No entanto o refinamento e a sutileza deste teatro, seja Nô, Kabuki, ou no Kyogen existe um ator que representa o nulo , aparentemente irrepresentável. Sigamos com a citação...
"Por exemplo no Teatro Nô, o segundo ator, o waki, representa freqüentemente seu não estar, sua ausênsia de ação. Eles ativam uma complexa técnica extra-cotidiana do corpo, que não deve servir para personalizar, mas para fazer notar sua capacidade de não personalizar."... "
Esta elaborada negociação artística se reencontra também quando o personagem principal sai de cena: o Shite, já despojado de seu personagem, mas nem por isso reduzido a sua identidade cotidiana, distancia-se dos espectadores com a mesma qualidade de energia que faz viva a sua representação."
Pudemos aqui compreender a riqueza deste momento da pré-expressão, es as incríveis possibilidades colocadas para o ator, neste caso do Pólo Norte, que simplistamente consideraríamos mais restrito em sua liberdade. Criou-se graças ao estudo cênico, neste exemplo, o teatro japonês , uma figura aparentemente impossível, com um grau de sofisticação impressionante. De fato sempre que pensamos a arte, a vemos com uma forma de representação que exige um conteúdo. Fulano ou Ciclano exprime em cena algo ou alguém. Aqui o aparentemente impossível é conseguido, que em nenhuma hipótese poderia surgir da suposição da imitação pura e simples da realidade. Vemos aqui a expressão viva de uma figura intelectual ao mesmo tempo viva e atuante. Uma figura cênica complexa e intrigante. Obviamente, mesmo despojado de seu personagem, vestimentas, adereços, etc, este ator japonês carrega consigo a presença cênica que o habilita a permanecer atuando ainda que não exprima nada. Ou este nada ainda exprime algo. Sabemos que ali esta presente um ator. Agora temos alguns fundamentos para compreender a noção Barbiana de pré-expressividade, momento anterior a expressão, atuação em cena. Claro deve ficar que resultado só é obtido, a custa de muito treinamento e que exige o emprego do equilíbrio dinâmico. Aprofundemos esta noção de Equilíbrio pois em conjunto com as técnicas extra-cotidianas formam a base do teatro Barbiano.
O equilíbrio....
" O equilíbrio é a capacidade do homem de manter-se ereto e de mover-se deste modo no espaço -- é o resultado de uma série de inter-relações e tensões musculares do nosso organismo. Quando ampliamos nossos movimentos, realizando passos maiores que o normal ou posicionando a cabeça mais para a frente ou para trás - o equilíbrio é ameaçado. Neste momento entra em ação uma série de tensões para impedir que caiamos. A "tradição do mímico moderno fundamenta-se no désequilibre para dilatar a presença cênica. Exatamente como o off-balance na dança moderna . "
Vemos que no universo cênico, o equilíbrio é modificado, tornando-se a base da qual decorrerão todos os movimentos corporais. Daí podemos compreender que o corpo cênico, justamente por ultrapassar os limites e imposições culturais, pode alcançar uma estética diferenciada, o ator pode utilizar o seu corpo, através do treinamento, com maior flexibilidade que jamais teríamos. Pode com os recursos técnicos encantar-nos, criando diferentes impressões em nós, dando-nos a impressão de uma argila que pode assumir diferentes formas, aumentar, diminuir, expandir, contrair.São estas analogias que nos permitem visualizar o que o recurso técnico habilita. Neste caso equilíbrio do corpo em cena, e o resultado para o espectador, diminuindo ou dilatando a presença cênica do personagem. Em conjunto com outras técnicas que veremos permitem a regulagem da intensidade da presença do personagem em cena, habilita um melhor manejo pelo diretor do desenrolar da peça, possibilitando variações de nuances que de outro modo seria impossível. Para quem executa a peça é fundamental deter estes instrumentos cênicos , que só são possíveis pelo treinamento exaustivo e concepção adequada dos elementos em jogo no teatro. Quando tais conhecimentos estão de posse do ator, este pode avaliar o seu progresso pessoal, o famoso mote , aprender a aprender.Poderemos agora sintetizar os pontos colocados , a saber a relação entre o cotidiano e o extra-cotidiano, mundo cênico, e sua relação neste momento analisado, pré-expressividade com o equilíbrio corporal.

PARTE 2


Os conceitos expostos atuam em conjunto formando uma base ao que se agregará a noção de Energia. No universo cênico mais e mais especializado, regem leis que interagem conjuntamente, todas elas fundadas nos mesmos princípios. mundo cênico tem leis e regras próprias não sendo assim mera cópia do mundo cotidiano. Nos encanta e enquanto o faz, mal percebemos que naquele todo se identificam procedimentos, textos sub-textos, desvios e controles da emoção que mal imaginamos, mas que após anos de treinamento, fluem naturalmente aos olhos do espectador. Devemos lembrar que o saber distingue no homogêneo o heterogêneo, no contínuo o descontínuo e vice- versa. Para nós a peça flui como um todo indiferenciado, mas para o iniciado se compõe de diferentes momentos, na peça e na cena e cada movimento se subdivide em tantas frações que sejamos capazes de executar Nesta segunda parte, concluiremos nossa narração das bases práticas sob as quais se sustenta o ofício de ator, e iremos adentrar com uma leve discussão da linguagem teatral a qual nos permitirá fechar nosso trabalho, mostrando que a Antropologia Teatral proposta por Eugenio Barba resume os principais elementos para a prática teatral bem como sua revolução é reconhecer a especificidade do teatro, e refletir procurando nesta reflexão, a base para o ator se definir como sujeito, dotado de uma identidade, isto é a resposta a indagação geral inicial é Sou Ator. Por outro lado verificaremos que o teatro Barbiano é parte de um vasto movimento intelectual que procura superar os limites do racionalismo utilitarista vigente, de uma lógica maquinal, e para tal, nos basearemos nos conceitos antropológicos de Edgar Morin.
Energia / Corpo - Mente .
Toda a nossa análise anterior teve como base a preparação do ator, o momento que chamamos pré-expressividade. Tivemos então, a distinção fundamental, cotidiano/extra-cotiano; Quanto a expressão cênica, esta ocorre com a mudança da postura, do equilíbrio corporal que afeta o corpo, produzindo o bios cênico (corpo).Assim nos preparamos para nossa postulação, a qual afirma que a atividade teatral se especializou criando conceitos própios distintos dos que usamos diáriamente, e que isto significou uma quebra do sentido usual das palavras. Voltaremos a este ponto posteriormente. Falta no entanto colocarmos um conceito para completar nossa noção de pré-expressividade , a saber, Energia.
A Energia para o ator : um "como"e não um "quê".
Básicamente a Energia para o ator, é o ímpeto, aquilo que o impulsiona para o trabalho cênico de preparação exaustiva. O acompanha no momento de execução do espetáculo, enfim esta presente a cada momento de sua atividade. Pode ser pensada e é frequentemente, como sendo algo que se tem, domina. No entanto energia é um processo que o ator estabelece consigo mesmo ,que o rege desde seu interior, é assim como um subconciente. Contudo é ainda dominável, manipulável, é pensamento. O pensamento regerá o ator, e o envolverá completamente. Quando o ator desenvolve sua técnica, seu corpo se modifica e é capaz de expressar diferentes estados emocionais. No entanto, frequentemente o uso excessivo da técnica leva ao tecnicismo, a querer resolver tudo na base da técnica, redundando numa camisa de força cênica. O ator deve chegar a um ponto em que é capaz de lidar com a sua Energia de maneira que não o limite (o ator), e isto só é possível quando compreende já ao fim de seu treinamento que persistiram situações que fogem ao treino.
Voltemos ao texto.
"Como movimentar-se. Como ficar imóvel. Como mise-en-scene, ou seja, mise-en-vision a sua presença física e transformá-la em presença cênica, e portanto expressão. Como fazer visível o invisível: o ritmo do pensamento"(pg.77 canoa..)
Estamos tratando da postura que se adota , do movimento, da imobilidade, tudo seguindo o ritmo do pensamento. Será ele quem irá gerar a presença cênica, determiminará o efeito cênico que nos deslumbra.
O que chamos de Energia aparecerá sob uma figura de um algo, um "quê", mas na verdade é um como, um processo que se estabelece e que devém com o treinamento. Barba afirma mais precisamente...
"O nosso pensamento pressiona os nossos gestos, como o polegar do escultor quando imprime formas, e o nosso corpo, esculpido interiormente, se dilata. O nosso pensamento pinça o reverso do nosso invólucro com o polegar e o indicador, e o nosso corpo, esculpido interiormente, se contrai."
Retorna a imagem do corpo cênico como sendo plástica, maleável, que com o treinamento pode ser manejado mais fácilmente. Aqui temos que no fundo o corpo cênico é modelado pelos pensamentos, ou melhor esculpido por eles. Agora poderemos entender mais claramente como se dá efetivamente a manipulação do corpo pela técnica. O corpo do ator, com o desenrolar do treinamento orientado, permite-se "dilatar" ou "comprimir". Esta maipulação do seu instrumento implica ter a percepção do resultado que se quer. Pois esta manipulação obedece ao critério de em última instância, cativar o espectador.
Aqui foi exposto de maneira metafórica, dilatar, comprimir, mas a idéia é regular a presença cênica. São expressas com metáforas, mas para o ator são indicações práticas para o trabalho. Em certas peças o ator parece ocupar todo o palco, parece explodir de energia. Nestas circunstâncias, nos extasiamos, nos empolgamos, às vezes choramos. Por um instante, mesmo o indivíduo mais cerebral se empolga e deixa-se levar pelo contexto criado naquele pequeno espaço. Agora imaginemos uma cena plena de vitalidade, cheia de cargas, muita ação, tudo ocorrendo num ritmo super-excitante, e num instante tudo pára, uma pausa. Sem mais nem menos. Ficamos atônitos. Mal nos refazemos e tudo reinicia. Como foi isto possível ? Energia. Veremos que parar, cessar o movimento( e saber retomar), pode diferenciar o grande ator.
Para "vencer a defesa do espectador ( que vem ao teatro para que estas sejam vencidas sendo estimuladas por isso ) são necessárias sutilezas fintas e contrafintas."(pg.78)
A questão é que ocorre algo mais em cena, que uma simples relação de comunicação transmissor/receptor, ou seja, o que se estabele na relação espectador/ator, no contexto da cena, é uma troca de energias, de emoções, uma interação que gera uma situação de qualidade diferente, e esta interação não deve permitir que por exemplo, possamos terminar uma peça nêutros. Barba compara a uma dança entre ator e espectador. Neste momento tudo deve estar coordenado.
Observemos...
"O ator ao representar percebe direções, sente as mudanças. Sente-se continuamente orientado. Neste sentido, o personagem é uma sucessão de impulsos, de movimentos do sentir...O ator é posto a prova quando deve parar estes impulsos, de movimentos como consequência da fala do outro ator.( Jouvet, louis, Le comedien desincarné, Paris,Flamarion,1954,p.182.
Temos aqui um ponto muito interessante, a saber, o controle deste sentir tão fundamental ao teatro. Evidentemente que as emoções não se apresentam tal qual no estado bruto, não são todavia artificiosas, são verdadeiras emoções cênicas. O sentir, que nos conduz, no caso do ator deve poder ser controlado. Evidentemente isto não é absoluto. Tudo se passa como se fora uma sucessão de movimentos do sentir. A despeito disso, como colocamos anteriormente, o ator respeita as falas, e por isso para na fala de seu companheiro. Um ator sem experiência perderia o "pique", e poderia retomar sua fala sem o mesmo ímpeto. Aí entra o contrôle das energias que o cercam, por fora, aparentemente inerte, mas se move por dentro (interior).Uma vez que a peça teve seu desenrolar, o ator sente suas energias fluindo, mas por instantes entra em repouso, mas apenas externamente, no seu interior tudo é movimento. Tais emoções aparecem como que desligadas para o espectador, mas diríamos, que neste instante esta em estado de alerta.O grande ator transmite aparente imobilidade emocional, mas nos surpreende por recomeçar com tanto brilho como quando havia interrompido sua participação. Outra quesatão interessante é que o controle da energia se dá de maneira a que a cada espetáculo, mesmo que em várias sessões em um mesmo dia, o ator deve reiniciar como se fora a primeira vez. Tudo isto é tensão de energia, mas como realça Barba, é tudo pensamento.
" Para um ator ter energia significa saber como modelá-la. Para ter uma idéia e vivê-la como experiência, deve modificar artificialmente os percursos, inventando represas, diques, canais... Estes constituem resistências contra as quais pressiona a intenção, consciente ou intuitiva, e que permitem a sua expressão. O corpo todo pensa/age com uma outra qualidade de energia. Um corpo-mente em liberdade afrontando as necessidades e os obstáculos predispostos, submetendo-se a uma disciplina que transforma em descobrimento..."
E completa esta compreensão com...
" A inteligência de um ator é a sua vitalidade, o seu dinamismo, a sua ação, a sua tendência, a sua energia. Um sentimento que vive e provoca nele, a um certo ponto, por um certo costume, um olhar profundo, uma condensação da sua sensibilidade, uma consciência de si mesmo. É o pensamento-ação." (pg79)
Enfim , energia é o pensamento-ação. Durante a peça, não se pensa simplesmente, já que todo o que é expresso interiormente se reflete no bios do ator. O pensamento segue a nantureza do personagem, e em função do longo treinamento flui livremente, com rapidez e de forma ordenada.Assim todo pensamento é ação, é corpo em movimento. Em oposição, quando pensamos cotidianamente, de um certo modo podemos estar desvinculados até da própia realidade vivida, este pensamento não modela a face com a mesma intensidade que modela a do ator. Culturalmente dissimulamos as emoções, ou pelo menos aceitamos como um comportamento social, uma certa dissimulação. Achamos que se trata de seriedade. De qualquer maneira, nossas expressões guardam certa distância do que foi pensado. Em um campo distinto, o emocional para o ator deve fluir muito mais livremente. Assim sendo, o pensamento, como outras definições utilizadas não é o mesmo que consideramos cotidianamente. Este pensamento-corpo, é pura reação onde no treinamento aprende-se a utilizá-lo para que os movimentos emitidos, em todos os sentidos, possam ser emitidos como se fossem espontâneos , como verdadeiros. De outro lado, o pensar é puro sentir, durante a ação quando sai liberado em uma descarga, marca e define a presença cênica.
A questão da sexualidade do ator.
No caso do grupo Odim o treinamento já implica que o ator lide facilmente com papéis diferentes de seu sexo, o ator deve lembrar-se que é forma que se ligará a um conteúdo. As definições que recebemos, homem/mulher devem ser esquecidas.O ator deve-se permitir trafegar livremente por personagens mais ou menos delicados, independente do sexo que tenha. Parece um pouco óbvio mas o ator iniciante deve manejar as sutilezas da natureza humana, que ora é frágil, ora é mais ríspida. Todos temos mas é bem mais flexível no ator desenvolvido.
Claro que existe uma especialização, e se utiliza o lado masculino ou feminino que flui mais graciosamente, mas o corpo cênico deve ser forma que se modela com a criação do personagem, e vem assim suposto que o sexo ali é do personagem e não do ator.Deve-se ter claro, o problema central aqui é compor um personagem ou seja, um padrão preciso de ações, que constitua as margens, os limites dentro dos quais flui a energia que transforma o bios natural em bios cênico, ou melhor, o seu mise- en-vision . Nesta composição do personagem, o ator precisa, desvincular sua imagem pessoal do sexo que nasceu. Coloquemos que esta distinção, mis-en-scene/mise-en-vision, do aparente que se pretende ser, para o que é de fato, o que se exige na construção do personagem. Estar no palco uma simples imagem ou estar no palco um ente com vida.

PARTE 3


Como pudemos acompanhar anteriormente, a organização do teatro de Eugenio Barba pretendeu efetuar uma crítica ao teatro tradicional através de mudanças teóricas e práticas. Barba inicia propondo uma distinção basilar, pensar o teatro com uma natureza distinta da que supomos para o cotidiano, nossas vidas. Iniciou pela distinção básica inicial, de que o teatro implica representação, expressão, de modo sutil e diferenciado, distinto do que imaginamos usualmente. Mostrou-nos que o ator é mais livre quando se permite subordinar a uma técnica cênica do que se partisse de suas própias observações, imitações para criar seus personagens. Pudemos entender este limite ao avaliarmos o resultado da alteração do equilíbrio, que não é inato, na expressão cênica. Assim seguindo a exposição podemos afirmar que o ator, dotado dos recursos que a técnica teatral dispõe, pode e consegue maior abrangência e liberdade cênicas que nenhum outro ator, gravitando em suas própias observações poderia alcançar. Ao analisar-mos o teatro Japonês, na figura do Shite, adentramos em um outro universo conceitual, rompendo a barreira dos limites da representação, personalizando o impersonalizável. Quando Barba propõe um teatro de Vanguarda, básicamente assume que o teatro tradicional participa de uma maneira de representar o mundo, que ao romper, por abstração, as diversas partes que compõe o atuar, resulta numa perda do sentido para o ator bem como para o espectador, que fica assim, na situação típica de um consumidor, que não pode escolher, o produto, apenas aprovar ou não. Para o ator, a adoção desta maneira de encarar significa abnegar sua identidade de ator, se restringir a um simples posicionamento no mercado de trabalho. O teatro mercantil, avançou sem a menor dúvida(pensemos apenas na iluminação, e nos complexos arranjos mecânicos de muitos musicais), mas gerou uma híper-especialização interna a qual resulta na perda da capacidade de controle pelo ator do resultado cênico. Decorre disto então, que o ator se especializa como um operário, realizando uma função delimitada, sem necessariamente compreender o que se passa globalmente. Desta especialização exagerada, fruto de um pensar que é socialmente dominante, a saber, lógico-analítico, resulta uma mecanização do trabalho cênico nos moldes de uma organização fabril.A saída para este processo, Barba propõe começar repensando as diferentes rupturas que o teatro tradicional efetuou : Separação de sexos, dança da representação, espectador do ator, etc. Disto resultou numa concepção original do teatro, chamado por ele de terceiro teatro, aqui uma terceira via. Incorpora a tradição cênica, sob o princípio denominado de pré-expressividade, equilíbrio postural, redundando numa diferenciação abrangente de todos os movimentos em cena, e atribui a Antropologia Teatral a sitematização destes princípios comuns aos atores. Barba cedo percebe que sua crítica não terá efeito se não conseguir modificar o papel do ator, dotando-o de uma identidade, isto é uma técnica sólida e uma filosofia teatral que justifique o treinamento pelo qual passará: Desgastante e operoso.Finalmente Eugenio Barba se depara com a necessidade de resitir ao violento processo de mecanização do teatro que ocorreu, criando suas ilhas cuja maior função é garantir que o antigo patrimônio teatral não desapareça. Um teatro que supõe uma comunhão ator - espectador, que fala de seus mitos, usos e costumes, que lhe fala ao coração. De certa forma um teatro que supõe uma realidade que já não existe mais, pois a atiga comunidade, com seu ethos, foi substituída por uma organização social impessoal. Agora poremos ligar Eugenio Barba ao nosso pensador Edgar Morin, e sua crítica ao pensamento reinante, nos núcleos dominantes do capital. Iniciaremos como uma breve digressão, conhecendo alguns dos pontos mais caros a Morin.

Edgar Morin e a Lógica das Máquinas

Na direção de uma crítica ao modelo dominante de pensamento, em nosso caso aplicado ao teatro, é necessário maior aproximação e nos utilizaremos de algumas posições de Edgar Morin, principalmente sua crítica ao pensar analítico . Nos fundamentaremos no seu livro Terra-Pátria.
Breve histórico do processo civilizatório ( Terra-Pátria)
1. A variável Sapiens
Ao longo de seu devir, o homem em sua feição Sapiens, superou as limitações de seu meio ambiente, reescrevendo-o, ou seja tornando-o afeito aos seus interesses. Sua trajetória nos leva a considerar que como Sapiens temos cerca de 50000 anos. Mas destes, apenas nos últimos 5000 anos, conseguimos estabelecer comunidades organizadas, sob leis, distintas das comunidades nômades anteriores.Enquanto bárbaros, nômades caçadores vagávamos errantes pelo planeta a procura de caça. Cultuávamos os elementos naturais, a chuva, o sol, as estrelas. Em nossa realidade, saltitavam demônios, bruxas, e deuses, animais parte homens. Éramos governados pelo mito, vivíamos num império oral, analfabetos. Para Morin no entanto éramos contudo uma humanidade, partilhávamos de ritos comuns e nos reconhecíamos uns nos outros, partilhavamos de nossa comunidade,( Terra-Patria, prólogo, pg 9).Com o aparecimento das grandes civilizações urbano/rurais, fundadas na linguagem escrita, os Sapiens dominam a terra e expulsam para rincões isolados, todas as outras formas de organização humana. Nasce a história com o surgimento do Estado, na mesopotânia, no Egito, India e China.
"Numa formidável metamorfose sociológica, as pequenas sociedades sem agricultura, sem estado, sem cidade, sem exército dão lugar a cidadelas, reinos, impérios de várias dezenas de milhares, depois milhões e bilhões de sujeitos, com agricultura,cidades, Estado, divisão de trabalho, classes sociais,guerra, escravatura, e mais tarde grandes religiões e grandes civilizações."(opus cit. pg 10)
Neste processo milenar, da passagem da pré-história para a era hstórica, perdeu-se o sentido de humanidade original. As diferenciações étnicas, culturais se cristalizam. Contudo Morin nos ensina que devemos compreender todo o processo civilizatório do ponto de vista antropológico, implica que...
"devemos considerar as diversas formas de organização social aparecidas no tempo histórico, desde o Egito faraônico, a Atenas de Péricles, até as Democracias e o Totalitarismo contemporâneos, como emergências de virtualidades antroposociais...como a concretização, a atualização das potencialidades do Homo Sapiens-demens." ( idem, pg 11)Vistos isoladamente, perderíamos o sentido desta travessia, que cada vez mais,e com maior rapidez nos direcionamos para o reencontro com a unidade perdida. Desde os inícios do século XV, a humanidade assiste uma integração initerrupta, de todos os seus seres, o que inicia sob a denominação de era Planetária, sua idade do ferro.
2. Era Planetária
Básicamente, o processo de integração da comunidade humana se inicia, com o período chamado ciclo das navegações, das grandes conquistas marítimas, que partindo da Europa, descobriram a América e comprovaram a esfericidade do planeta. O desenvolviemto da navegação escancarou a porta para a unificação dos povos e culturas.Intensa troca de produtos, animais e vegetais, técnicas e conceitos varreram a terra e com o predomínio militar, os povos europeus governaram o mundo pelos 450 anos seguintes. Europeus do sul e do Norte devastaram e pilharam todo o planeta. Contudo, este processo doloroso, serviu para gerar um desenvolvimento das técnicas e das ciências sem paralelo, em qualquer período anterior da história dos Sapiens. O resultado foi a ocidentalização do mundo (op.cit. pg 17) Com isto a cultura européia serve de base para a redefinição de todos os povos emergentes da América , África e da Ásia. Europeus disseminan-se por imigração e mesclagem, mantendo assim seu predomínio sob a terra.Do século XV até os nossos dias houve uma transformação significativa, de um mundo ainda agrário, para um predominantemente industrial e urbano. O processo de mundialização ocorre em todos os sentidos, inclusive no religioso e no econômico. Neste final de século XX assistimos a ascenção dos asiáticos, como que emergindo das sombras, fato que com certeza recoloca certos dados no lugar, já que desde a antiguidade a Ásia sempre foi o centro da civilização. No entanto devemos compreender que somos uma civilização mundial, interdependentes. Com a emergência do Japão, da India e China, reequilibram-se os pólos de influência.
3. A Era das Máquinas
Neste movimento de expansão,o fator chave foi a revolução mental ocorrida na Europa, chamada revolução técnica. Fator determinante para sua expansão e dominação, sem dúvida foi o pensamento lógico-matemático, que se disseminou pelos setores de produção e daí por toda a sociedade. É dogma nos diz Morin considerar..." conhecimento pertinente, o que cresce com a especialização e abstração."(opus cit. pg 131) Este conhecimento não é senão o pensamento analítico. Vejamos com Morin o descreve.
" O conhecimento especializado, é, em si mesmo, uma forma particular de abstração. A especialização abstrai, ou seja, extrai um objeto de um determinado campo, rejeita os laços e intercomunicações com o respectivo meio e insere-o num setor conceitual abstrato que é o da disciplina compartimentada cujas fronteiras quebram arbitrariamente a sistemicidade( a relação de uma parte com o todo) e a multidimensionalidade dos fenômenos; conduz à abstração
matemática que opera por si mesma uma cisão com o concreto, privilegiando por um lado, tudo o que é calculável e formalizável e ignorando, por outro, o contexto necessário à inteligibilidade dos seus objetos." ( opus cit. pg 131)
Este modo de abordar os fenômenos ocorre basicamente pela necessidade de formalização matemática. Retira-se do fenômeno todas as características não mensuráveis e a seguir destas que restaram, são articuladas num modelo explicativo do fenômeno. Na física a queda de um objeto é resumida, a uma expressão algébrica, supondo uma realidade imaginária, simplificada( uma ambiente com ou sem atrito, com ou sem gravidade), o que em outras eras , particularmente na Idade Média seria considerado um absurdo. Não devemos contudo desprezar pois este modo de conceber a realidade, é extremamente proveitoso, e foi graças a ele que pudemos avançar no conhecimento com tanta rapidez. Uma vez que este modo de pensar penetrou no território da produção, por meio do emprego de engenheiros e físicos, as máquinas passaram a reunir todo conhecimento físico existente, e o poder industrial se multiplicou. A divisão do trabalho, regida pelo ritmo das máquinas, bem como novas técnicas de arranjo e disposição destas, no espaço fabril, multiplicaram mais uma vez este poderio.Iniciamos o século XX, com uma capacidade industrial jamais vista ou sonhada. Com base no arsenal teórico Newtoniano, conquistamos o mar, a terra, e o ar. O planeta se tornou uma aldeia global( Mac Luhan). Contudo os resultados sociais foram igualmente devastadores.
"O pensamento que compartimenta, corta e isola, permite que os especialistas e peritos tenham muito sucesso nos seus compertimentos e cooperem eficazmente em setores de conhecimento não complexos, nomeadamente nos que dizem respeito ao funcionamento das máquinas artificiais; mas a lógica à qual obedecem espalha na sociedade e nas relações humanas os constrangimentos e os mecanismos desumanos da máquina artificial, bem como a sua visão determinista, mecanicista, quantitativa e formalista, ignorando, ocultando ou dissolvendo tudo o que é subjetivo, afetivo, livre e criador"(opus cit. p 132 e 133).
Para nossos fins esta avaliação é suficiente. Como vimos Barba criticou o teatro tradicional porque rompeu com o sentido histórico do teatro, sua tradição. Mecanizou o atuar, levando a um tecnicismo, muito enfeite, pouca razão. Agora vemos que não poderia ter sido de outro modo. Barba com sua crítica colocou um problena de sua área, mas que bem poderia exprimir o própio contexto social vigente, já que ambos Morin e Barba, estão diante de um memo fenômeno: a expansão do pensamento formal analítico e sua disseminação por todos os lados e aspectos sociais. A aldeia Barbiana, é um núcleo de resistência a corrente dominante no teatro mas bem pode expressar um sentimento de mal estar diante do avanço desta mentalidade que permeia muitos acadêmicos de diferentes áreas e funções.Barba e Morin sabem que em nossa época o pensar analítico é dominante, e ir contra é remar contra a maré. No entanto Morin sugere atenção com o devir histórico pois parece que começam a aparecer problemas, nos quais o pensar estabelecido é parte do problema e não solução, é preciso partir para a multi-disciplinariedade( fato que fica claro quando consideramos os danos ecológicos ocorridos e suas implicações sociais). Se Barba recoloca e reestrutura todo o espetáculo a partir do ator, rompendo as separações habituais, ator/espectador, andar/dançar, o enredo não linear, etc, o faz na expectativa de re-colocar o contexto cênico, para uma interação, e não simples exposição de uma história.
Em Morin, o pensamento deve recolocar o contexto para não perder o sentido, cita Bastien.
" A evolução cognitiva não caminha para a instalação de conhecimentos dada vez mais abstratos, mas, ao invés, para a sua contextualização"( Claude Bastien, Le décalage entre logique et connaissance, Courrier du CNRS,79,Sciences cognitives, out.1992)
A academia repele mas Morin observa que se trata de um tendência crescente e necessária. A estabilização do processo de planetarização esta ainda distante mas podenmos vislumbrar alguns fenômenos. "os pensamentos fracionários, estilhaçam tudo o que é global, ignoram por natureza o complexo antropológico e o contexto planetário"( opus cit p.137) Ou seja a planetarização é inevitável e seus fundamentos são inter-dependência, multidimensionalidade, ou como conclui Morin...
" A terra não é a soma de um planeta físico, mais a biosfera e mais a humanidade. A terra é uma totalidade complexa física/ biológica/antropológica, em que a vida é uma emergência da história da Terra e o homem uma emergência da história da vida terrestre.
Se quisermos ser realistas devemos abandonar unilateralismos, pois ser realista é acercar-se da realidade, compreendê-la o mais profundamente possível. É necessário portanto um pensamento capaz de lidar com esta realidade: "pensar o contexto e o complexo"(idem, pg 137). A fórmula completa do pensar antropológico é pensar global/agir local, pensar local/agir global.Temos então a base para um pensamento planetário, o qual deixa..." de opor o universal e o concreto, o geral e o particular: o universal tornou-se particular, é o universo cósmico, e o concreto é o universo terrestre. A perda de universalismo abstrato parece a muitos a perda do universal e a perda do pseudo-racionalismo parece aos racionalizadores uma subida do irracionalismo... existe finalmente a emergência do universal concreto"(idem p.139) É óbvio que esta planetarizaçào terá consequências para o conhecimento e algumas delas com certeza implicará a quebra de muitos tabus, acadêmicos ou não. Aqui Morin nos aponta para redefinição de nossos conceitos mais preciosos, finalmente teríamos chegado a um tipo de unidade o que se supunha perdida, ou impossível.


CONCLUSÃO


Pontos Básicos
Procuramos avaliar a concepção antropológica de Eugenio Barba, e nos descobrimos com um problema, a saber, seu teatro é um ponto de resistência a uma concepção de mundo. Claro que se materializa na área teatral, porém seu trabalho se embasa nesta crítica que já não é nova e que podemos dizer se estabiliza com os pensadores de esquerda, numa crítica ao racionalismo e sua racionalidade. Parte para a construção de seu experimento teatral, de uma compreensão profunda do mundo em que vivemos, sem a menor dúvida. Vivemos numa crise pois nosso sistema se fragmenta, seus pilares já apresentam rachaduras, o modo explicativo, e suas soluções falham. Com Morin, pudemos perceber que no fundo a crítica Barbiana, era um sub-parte de um problema bem mais amplo. Com a crítica de Edgar Morin, pudemos avançar, na compreensão dos limites do pensamento dominante. Assim pudemos estabelecer, uma concordância entre a crítica Barbiana ao Teatro tradicional e a crítica de Morin ao pensamento e nossas concepções estabelecidas. Ambos sabem que estão ilhados. Sabem contudo que não estão completamente isolados.Vimos pelo ângulo de Morin, que estamos num processo irreversível de integração do planeta, tanto sócio, como economicamente. As consequências para a cultura são e serão enormes. Nessa era planetária, deveremos enfrentar os desafios da integração das nações em larga escala. Nossa identidade nacional pode ser posta em cheque, o que nos diria Barba, nos levara a encontrar os princípios que subjazem em todos nós, ou seja, devemos nos colocar antropologicamente, no sentido de uma visão que por detrás desta ou daquela manifestação, esta o homem.Se for assim e pensamos que será, a vanguarda deverá ganhar cada vez mais companheiros. Eugenio barba, luta para manter uma idéia de teatro, onde se almeja repor um tipo de identidade para o ator, na sua profissão, a partir de uma compreensão maior, das características de sua arte, e da unidade que subjaz ( pré-expressividade). O ator é um espírito saltimbanco, carrega consigo o sonho, e com isto nos faz sonhar. Carrega nossos mitos , nossa subjetividade, e a expressa conosco. Lembra-nos, das performances, numa noite, onde espectadore e atores compartilhavam o mito, ao sabor de uma fogueira, e cantavam e dançavam todos juntos. Esta era se foi, mas como vimos, seu espírito não se perdeu.Em nosso mundo moderno, urbano, somos forçados a adotar uma conduta impessoal, a nos inserir num contexto racional, a nos resumirmos a uma afetividade controlada, a uma subjetividade que aspira mais espaço, a termos identidade, sem sermos diferentes. Reconhecimento mas sem distinção. No entanto tudo é sonho e tudo é vida, a tecno-burocracia, mal se desenvolveu, a máquina de gerar saberes e técnicas, multiplica o conheciimento a cada 18 meses, o que levámos uma geração executamos agora em poucos anos. Em nossa era os avanços se aceleram, e já antevemos que o impossível é apenas um pouco mais difícil...

segunda-feira, 2 de julho de 2007

TADEUZ KANTOR (1915-1990) - Michal Kobialka

Tadeusz Kantor, artista plástico polonês, teórico e diretor teatral, fundador (com Maria Jarema) da companhia teatral CRICOT 2 (1995), nasceu em Wielopole, Polônia. Foi educado em Tarnóvia e Cracóvia. Quando estudou pintura e cenografia na Academia de Belas Artes de Cracóvia (1933 -1939), Kantor conheceu o simbolismo, o construtivismo e Bauhaus.
Em 1938, ele fundou o Teatro Ephemeric (Mecânico), onde apresentou A Morte de Tintagiles de Maurice Materlinck. Em 1942, com um grupo de pintores jovens, Kantor organizou o Teatro Independente, clandestino e experimental, durante a ocupação nazista, onde ele dirigiu Balladyna de Juliusz Slowacki (1942) e O Retorno de Ulisses de Stanislow Wyspianski. ]
Como citado por Kantor em sua “Lição 1” de As Lições Milanesas, esta produção foi fundamental para a elaboração dos seus conceitos sobre espaço autônomo de performance, objeto pobre, ator-objeto, e “realidade da vida” (“realidade do mais baixo escalão”): 1944. Cracóvia. Teatro Clandestino. O Retorno de Ulisses do Sítio de Estalingrado.
O abstracionismo, que existiu na Polônia até o inicio da II Guerra Mundial, desapareceu no período do genocídio em massa. [...]A arte perdeu seu poder.A re-produção estética perdeu seu poder.O ódio de um ser humano apoiado por outras bestas humanas amaldiçoou a a r t e. Só tínhamos força para agarrar o que estava mais próximo, O Objeto Real e chamá-lo de obra de arte! No entanto, era um objeto p o b r e, incapaz de realizar qualquer função na vida real, um objeto a ser descartado. Um objeto que foi desprovido de uma função vital que o salvaria. Um objeto despojado, sem função, a r t í s t i c o! [...]Uma cadeira de cozinha …Um objeto, que foi esvaziado de qualquer função vital, veio à tona pela primeira vez na história. Este objeto era vazio.Tinha que justificar sua existência a si mesmo e não às coisas que o cercavam e lhe eram estranhas.[E o fazendo, o objeto] revelava sua própria existência. E quando sua função era imposta a ele, essa ação era vista como se isso tivesse acontecido pela primeira vez desde o momento da criação.Em O Retorno de Ulisses, Penélope, sentada em uma cadeira de cozinha, representou o ato de estar “sentada” como um ato humano acontecendo pela primeira vez. O objeto [físico] adquiriu sua função histórica, filosófica e a r t í s t i c a !
1 Os experimentos de 1944 e 1963 fecham o período no qual Kantor questiona as convenções de criação ou exibição artística vigentes, e, devido à experiência da II Guerra Mundial, modifica a função de uma vanguarda artística numa sociedade. Estes experimentos colocam em xeque as narrativas históricas oficiais que encontram um modo efetivo de desprezar o questionamento de Adorno sobre o que significa representar depois de Auschwitz. Assim, por exemplo, em O Retorno de Ulisses, em 1944, “Ulisses se recusa categoricamente a ser apenas uma imagem, uma representação. [...] em tempos de loucura gerada pelos homens, em tempos de guerra, a morte e suas trupes tenebrosas, que se recusaram a ser impedidas pelos sentidos humanos e racionais, iniciando e confundindo-se com a esfera da vida”.
2. A emoção do drama e seu caráter mitológico foram atirados e fundidos com a vida contemporânea. A peça foi representada não em um teatro, mas sim em uma sala que “estava destruída. Havia guerra e havia milhares de salas assim. Todas se pareciam: tijolos sem reboco por trás de uma camada de tinta, gesso caindo do teto, piso faltando tacos, pacotes abandonados cobertos de poeira, entulho espalhado por todos os lados, pranchas remanescentes de um convés de navio foram dispensadas ao horizonte dessa decoração, um tambor de revólver apoiado num monte de pedaços de ferro, um megafone militar pendurado por um cabo de aço enferrujado. A figura inclinada de um soldado com capacete usando um sobretudo surrado [de um soldado alemão] em pé contra a parede. Nesse dia, seis de junho de 1944, ele se tornou parte dessa sala".
3. Em 1963, os objetos exibidos tornaram irrelevante qualquer tentativa classificatória de localizá-los no espaço ou seqüência temporal sistematizando-os em uma unificadora totalidade. Ao contrário, os objetos rearticularam suas funções nas relações, que aconteceram acidentalmente, e que não poderiam ser previstas por nenhuma norma – “a ditadura da utilidade” é vencida; o objeto que estava despido da segurança da sua estrutura original a que pertence, “começa uma discreta relação possível com seus semelhantes”.
4 Para conseguir isso, Kantor explora o processo de incorporação na atividade artística de objetos encontrados, ou seja, os objetos, os eventos e o ambiente. Esta realidade não subjugada à modelagem artística ou necessidades formais. Não funciona como modelo, que existe anterior à obra de arte, e, conseqüentemente, não corresponde a nenhuma convenção de representação. Conforme Kantor observou: Realidade pode apenas ser “u s a d a”“Usada” é o único termo apropriado fazer uso da realidadena a r t e significauma apropriação da realidade. [...}Durante esse processoa realidade t r a n s g r i d e sua própria b a r r e i r a e caminha na direção do “i m p o s s í v e l" A realidade apropriada contem em si mesma objetos reaissituaçõese um ambiente descritopelo tempo e lugar.Suas r e a ç õ e s entre si,as i n t e r c o n e x õ e s entres eles a apropriação g e s t u a l do (como se, encantando a realidade) r i t u a l são substituídos pelo processo de modelagem que está fora de questão aqui.
5.A estratégia da apropriação da realidade significa o processo de arrancar os objetos da realidade para explorar sua qualidade de objeto no meio onde eles adquiriram suas funções na relação com outros elementos colocados nesse espaço.
6. Portanto, os objetos são descaracterizados e não conceituais no entender de Adorno sobre os princípios que regem as obras de arte autônomas.
7. O foco está em suas estruturas inerentes, ao invés de na totalidade dos efeitos; num processo manual de significação, ao invés da soberania visual do olhar produzindo a imagem representacional num espaço clássico, tridimensional; nos processos não-representativo, não-ilustrativo, e não-figurativo, nos quais o olhar não desempenha uma função visual de ordenação, mas segue as relações que organizam seus campos de percepção; no irrepresentável na representação em si mesma; naquilo que “recusa o consolo das formas corretas, recusa o consenso do gosto permitindo uma experiência comum de nostalgia pelo impossível, e questiona novas apresentações.”
8 Levando em consideração a importância e a direção das transformações na arte em geral no século XX e no Dadaísmo, Surrealismo, Abstracionismo, Arte Informal em particular, Kantor enfatizou sua partida pelas formas geométricas ou abstratas, que tinham que eliminar ou transcender os dois eventos históricos, como a I e II Guerras Mundiais, co-modificação das artes, em direção à realidade degradada ou à realidade do mais baixo escalão, destituída de seus aspectos marcantes pelos eventos da guerra. A realidade degradada ou a “realidade do mais baixo escalão” não funciona como uma estratégia artística, mas sim como uma indução tática, que permitirá ao artista ser “surpreendido, acidentalmente ou de forma inesperada, pela esfera desconhecida e ignorada da realidade que intervem na arte.”
9 Na produção de Kantor de O Polvo (1956) de Stanislaw Ignacy Witkiewicz (Wtkacy´s), ambiente, objeto e atores foram engajados num processo complexo de constituição de formações espaciais diversas criando choques, escândalos e tensões com o objetivo de desbloquear a imaginação e esmagar a casca empregnável do drama. Isto quer dizer, ambientes, objetos e atores, e mais seus atributos, não ilustravam, interpretavam ou teciam comentários sobre o drama, mais que isso, eles criaram um sistema de relações para depreciar o valor da realidade por explorar seu aspecto cotidiano desconhecido, escondido. Esta exploração foi diferente em momentos distintos nos anos 60. No “Teatro Informal”(1961), Kantor explorou a matéria [um aspecto desconhecido da REALIDADE ou do seu estado elementar], que não precisa obedecer as leis da realidade, está sempre mudando e fluindo;escapa da escravidão das definições racionais, faz todas as tentativas para comprimi-lo em uma forma sólida ridícula, desnecessária e vã;é destruidora perene de todas as formas,e nada mais que uma manifestação,é acessível apenas pelas forças de destruição, por vontade e risco da COINCIDÊNCIA,e por uma ação rápida e violenta.
10 No “Teatro Zero” (1963) Kantor lidou com objetos marginalizados e emoções para desmembrar o desenvolvimento da trama lógica, construindo cenas por referência textual para revelar a individualidade de um ator descartando a ilusão: A técnica tradicional de desenvolver trama fez uso da vida humana como um trampolim para se impulsionar em direção ao reino das paixões crescentes e intensas do heroísmo, do conflito e das reações violentas. Quando surgiu pela primeira vez, essa idéia de “crescer” significou a expansão trágica do homem, ou uma batalha heróica para transcender as dimensões humanas e seus destinos. Com o passar do tempo, se transformou em um mero show, exigindo potentes elementos de espetáculo e a aceitação da ilusão violenta e irresponsável – figuras convincentes e uma procriação impensada de formas.
11 No “Teatro do Happening” (1967), Kantor deu atenção à verdade cotidiana e sua potencialidade para ser objeto não-conceitual médio ou “objeto-encontrado”, objeto “que fora encontrado: um objeto cuja estrutura [era] densa e sua identidade [era] delineada por sua própria ficção, ilusão, e dimensão físico-psicológica.”
12 Fazendo uso de objetos pobres, matéria, objetos marginalizados, objetos deteriorados, que são colocados dentro de uma estrutura aberta de realidade fluida, dinâmica, Kantor modificou um modelo de cultura ou atividade artística baseado na restrição, negação, transformação da imagem/objeto. Os experimentos teatrais de Kantor, que, no período de 1965 até 1969, tomaram forma de Happenings, mais adiante desenvolveram estes conceitos.
13 O manifesto “O Teatro da Morte”(1975) significou uma mudança nas pesquisas de Kantor. As produções, que seguiram, exploraram as noções de memória, história, mito, criação artística, e a função do artista como cronista do século XX: A Classe Morta (1975: a exploração de memórias acontecia num espaço ante uma barreira intransponível); Wielopole, Wielopole (1980 : introdução da idéia de espaço da memória); Que Morram os Artistas (1985: introdução à teoria de negativos que modificaram a noção de espaço da memória–agora, era denominado depósito de memória, ou seja, um lugar onde lembranças são sobrepostas umas às outras); Aqui Não Volto Mais (1988: introdução da idéia de pousada da memória, que existia além dos confins do tempo e espaço, onde Kantor encontrou suas próprias criações passadas); e Hoje é Meu Aniversário (1990: exploração do ultrapassar o limiar entre o mundo da Ilusão e o mundo da Realidade, que provocou a desintegração da própria ilusão).
14 As experiências teatrais de Kantor e sua versão oficial e não-oficial da história do século XX são testemunhas de sua crença que o teatro é uma resposta para a realidade, ao invés de representação da realidade. Mais importante, como ele observou, Teatro “é uma atividade que acontece se a vida é levada ás últimas conseqüências, onde todas as categorias e concepções perdem seus significados e direitos de existir; onde loucura, febre, histeria e alucinações são o último estágio da vida diante da chegada da TRUPE DA MORTE e do ESPLÊNDIDO ESPETÁCULO da morte.".
15.Fontes Adicionais A Journey Through Other Spaces: Essays and Manifestos: 1944-1990, editado, traduzido e com análise crítica do teatro de Tadeusz Kantor por Michal Kobialka (Berkeley, 1993)Ein Reisender, ed. Piotr Nawrocki and Peter Kamphel (Nürnberg, 1988)Hommage á Tadeusz Kantor, ed. Krzysztof Pleśniarowicz (Cracóvia, 1999)Kantor, l’artiste á la fin du XXé siécle, ed. Georges Banu (Paris, 1990)Dennis Bablet, Tadeusz Kantor (Paris, 1983)Wiesław Borowski, Tadeusz Kantor, (Warszawa, 1982)Krzysztof Pleśniarowicz, The Dead Memory Machine: Tadeusz Kantor’s Theatre of Death (Londres, 2000)NotasTadeusz Kantor, “Milano Lessons: Lesson 1,” A Journey Through Other Spaces: Essays and Manifestos, 1944-1990, translated and with the critical commentary by Michal Kobialka (Berkeley: University of California Press, 1993), 211-12.A Journey, 274.A Journey, 272.Walter Benjamin cited in Douglas Crimp, “This is not a Museum of Art,” Marcel Broodthaers (Minneapolis: Walker Art Center, 1989), 72.A Journey, 96-7.In 1963, Kantor presents the Popular Exhibition, also known as the Anti-Exhibition, at Galeria Krzysztofory in Kraków. It comprised of the objects, which were usually removed to the margins of the creative activity, glossed over by the traditional conventions, and discarded as irrelevant. “It was an inventory [of facts, theatrical objects, drawings, sketches, prescriptions, letters, stamps, tram and bus tickets, etc.] without any chronology, hierarchy, and locality. I found myself in the middle of all that, without a role of my own” (Kantor, “Zero,” Ambalaże (Warszawa: Galeria Foksal, 1976), 21). The objects, like laundry pieces, were hanging clipped to the ropes running through the vaulted space of the Gallery (A Journey, 23-5).Theodor Adrono, “Commitment,” The Essential Frankfurt School Reader, eds. Andrew Arato and Eike Gebhardt (Oxford: Basil Blackwell, 1978), 317.Jean-François Lyotard, The Postmodern Explained, trans. Don Barry, Bernadette Maher, Julian Pefanis, Virginia Spate, and Morgan Thomas (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993), 15.Wiesław Borowski, Tadeusz Kantor (Warszawa: Wydawnictwa Artystyczne i Filmowe, 1982), 76.A Journey, 51.A Journey, 59.A Journey, 85.See “Tadeusz Kantor’s Happenings: Reality, Mediality, and History,” Theatre Survey 43, 1 (May 2002): 59-79.See A Journey, Part 2, “The Quest for the Self/Other: A Critical Study of Tadeusz Kantor’s Theatre” for a detailed discussion of the concept of memory in Kantor’s production from the period between 1975 and 1990.A Journey, 149.

TADEUSZ KANTOR -A CONDIÇÃO DE ATOR

O desmoronamento da moral burguesa do século XIX, quando somente os maiores talentos obtinham com muita dificuldade direito de cidadania, permite enfim ao ator chegar a uma posição social normal.
A revolução social dos anos vinte faz dele um trabalhador da cultura de vanguarda. São os anos em que o construtivismo, liberando a arte dos miasmas do idealismo, fascina o mundo por sua doutrina de uma arte concebida como fator de organização dinâmica da vida e da sociedade.
À medida que se desenvolve a civilização industrial e técnica, que a arte perde em numerosos países sua posição de vanguarda e seu dinamismo, o teatro transforma-se cada vez mais em uma instituição e o ator, por conseguinte, em funcionário a ela incorporado. Os direitos que havia obtido esfacelam-se ao contato com uma sociedade de consumo cujas idéias e existência estão fundamentadas sobre um pragmatismo radical, o culto da eficácia e um sentido de automatismo hostil a qualquer intervenção perturbadora da arte.
A assimilação a essa sociedade leva à surdez artística, à indiferença e ao conformismo.
Essa decadência é acelerada pela expansão dos meios de informação de massa: cinema, rádio, televisão.
Nesta etapa final reencontramos atitudes que têm estado sempre próximas uma da outra, a saber: o conformismo moral, uma indiferença absoluta quanto à evolução das formas e também a esclerose artística.
Uma certa laicização e a democratização do ator contribuíram para sua emancipação histórica, mas paradoxalmente tornaram-no medíocre.
A assimilação e a recuperação do artista e de sua arte pela sociedade de consumo encontram um exemplo típico no ator.
O ator-artista foi desarmado, aprisionado. Sua capacidade de resistência, tão importante para ele mesmo quanto para o papel que desempenha na sociedade, foi destruída, o que o leva a obedecer a todas as conveniências e leis que regem o bem-estar na sociedade de produção e de consumo, a perder sua independência, que é o que, colocando-o fora da comunidade, permite-lhe agir sobre ela.
A reforma do teatro e da arte do ator deve realizar-se em profundidade e tocar os fundamentos do ofício.
Durante um longo período de isolamento social, a atitude e a condição do ator carregaram a marca profunda de traços naturalmente saídos do mais secreto de seu psiquismo, que o distinguem da sociedade bem pensante e fazem nascer, por sua vez, formas autônomas de ação cênica.
Esbocemos uma imagem dessa personagem:
- O ATOR
- retrato nu do homem,
- exposto a qualquer transeunte,
- silhueta elástica.
- O ator,
- forasteiro,
- exibicionista desavergonhado,
- simulador fazendo demonstração de lágrimas,
- de riso,
- de funcionamento
- de todos os órgãos,
- dos vértices do espírito, do coração, das paixões,
- do ventre,
- do pênis,
- o corpo exposto a todos os estimulantes,
- todos os perigos
- e todas as surpresas;
- engodo,
- modelo artificial de sua anatomia
- e de seu espírito,
- renunciando à dignidade e ao prestígio,
- atraindo os desprezos e os escárnios,
- tão perto das lixeiras quanto da eternidade,
- rejeitado pelo que é normal
- e normativo em uma sociedade.
- Ator
- que vive unicamente
- no imaginário,
- levado a um estado de insatisfação crônica
- e de insaciabilidade perante tudo
- aquilo que existe realmente,
- fora do universo da ficção,
- que o compele
- a uma nostalgia perpétua
- constrangendo-o
- a uma vida nômade.
- Ator forasteiro,
- eterno errante
- sem lar nem lugar,
- buscando em vão o porto,
- carregando em suas bagagens
- todo o seu bem,
- suas esperanças, suas ilusões perdidas,
- o que é sua riqueza
- e sua carga,
- uma ficção
- que ele defende zelosamente até as últimas conseqüências
- contra a intolerância de um mundo indiferente.

TADEUSZ KANTOR - O TEATRO DA MORTE

1. Craig afirma: a marionete deve retornar; o ator vivo deve desaparecer. O homem, criado pela natureza, é uma ingerência estranha na estrutura abstrata de uma obra de arte. De acordo com Gordon Craig, em algum lugar às margens do Ganges, duas mulheres invadiram o templo da Divina Marionete, que conservava com vigilância o segredo do verdadeiro TEATRO. Essas duas mulheres tinham inveja desse SER perfeito e almejavam seu PAPEL, que era iluminar o espírito dos homens pelo sentimento sagrado da existência de Deus; elas almejavam sua Glória. Apropriaram-se de seus movimentos e de seus gestos, de suas vestimentas maravilhosas, e, pelo recurso de uma medíocre paródia, admiraram-se satisfazendo os gostos vulgares da plebe. Quando enfim elas fizeram construir um templo à imagem do outro, o teatro moderno - o que conhecemos muito bem e que ainda permanece - havia nascido: a ruidosa Instituição de utilidade pública. Ao mesmo tempo que ela, surgiu o ATOR. Em apoio à sua tese Craig invoca a opinião de Eleonora Duse: "Para salvar o teatro, é preciso destruí-lo; é preciso que todos os comediantes e todas as comediantes morram de peste... são eles que levantam obstáculos à arte..."
2. Teoria de Craig: o homem-ator suplanta a marionete e toma seu lugar, causando assim o declínio do teatro. Há algo de imponente na atitude desse grande utopista quando ele afirma: "Exijo com toda a seriedade o retorno do conceito da supermarionete ao teatro... e desde que ela reapareça, as pessoas poderão novamente venerar a felicidade da existência e render uma divina e alegre homenagem à MORTE." De acordo com a estética SIMBOLISTA, Craig considerava o homem submetido a paixões diversas, a emoções incontroláveis e, por conseguinte, casuais como um elemento absolutamente estranho à natureza homogênea e à estrutura de uma obra de arte, como um elemento destruidor do seu caráter fundamental: a coesão. Craig - assim como os simbolistas cujo programa, em seu tempo, teve um desenvolvimento notável - tinha atrás de si os fenômenos isolados mais extraordinários que, no século XIX, anunciavam uma época nova assim como uma arte nova: Heinrich von Kleist, Ernst Theodor Hoffmann, Edgar Allan Poe... Cem anos antes, e por razões idênticas às de Craig, Kleist tinha exigido que o ator fosse substituído por uma marionete, pensando que o organismo humano, submetido às leis da NATUREZA, constituía uma ingerência estranha na ficção artística nascida de uma construção do intelecto. As outras censuras de Kleist faziam-se sobre os limites das possibilidades físicas do homem e ele denunciava além disso o papel nefasto do controle permanente da consciência, incompatível com os conceitos de encantamento e de beleza.
3. Da mística romântica dos manequins e das criações artificiais do homem do século XIV ao racionalismo abstrato do século XX Ao longo do caminho que se pensava seguro e que foi tomado ao homem do Século das luzes e do racionalismo, eis que avançam, saindo repentinamente das trevas, sempre mais numerosos, os sósias, os MANEQUINS, os Autômatos, os Homúnculos - criações artificiais que são várias injúrias às criações próprias da NATUREZA e que carregam em si todo o menosprezo, todos os sonhos da humanidade, a morte, o horror e o terror. Assiste-se ao aparecimento da fé nas forças misteriosas do MOVIMENTO Mecânico, ao nascimento de uma paixão maníaca de inventar um MECANISMO que sobrepujasse em perfeição, em implacabilidade, o tão vulnerável organismo humano. A tudo isto em um clima de satanizo, no limite do charlatanismo, das práticas ilegais, da magia, do crime, do pesadelo. é a CIêNCIA-FICçãO da época, na qual um cérebro humano demoníaco criava o HOMEM ARTIFICIAL. Isto significava simultaneamente uma crise de confiança súbita em relação à NATUREZA e a esses domínios da atividade dos homens que lhe estão intimamente associados. Paradoxalmente, é dessas tentativas românticas e diabólicas ao ponto de negar à natureza seu direito à criação que nasce e se desenvolve o movimento RACIONALISTA ou mesmo MATERIALISTA - sempre mais independente e sempre mais perigosamente distanciado da NATUREZA - a corrida para um "MUNDO SEM OBJETO", para o CONSTRUTIVISMO, o FUNCIONALISMO, o MAQUINISMO, a ABSTRAçãO e, finalmente, o VISUALISMO PURISTA que reconhece simplesmente a "presença física" de uma obra de arte. Esta hipótese arriscada que tende a estabelecer a gênese pouco gloriosa do século do cientismo e da técnica engaja apenas minha própria consciência e serve unicamente à minha satisfação pessoal.
4. O dadaísmo, introduzindo a "realidade já pronta" (os elementos da vida), destruiu os conceitos de homogeneidade e de coerência da uma obra de arte postulados pelo simbolismo, a Arte nova e por Craig Mas retornemos à marionete de Craig. Sua idéia de substituir um ator vivo por um manequim, por uma criação artificial e mecânica, em nome da conservação perfeita da homogeneidade e da coerência da obra de arte, não tem mais sentido hoje. Experiências ulteriores que destruíram a homogeneidade da estrutura de uma obra de arte introduziram nela elementos ESTRANHOS, através de colagens e de montagens; a aceitação da realidade "já pronta"; o pleno reconhecimento do acaso; a localização da obra de arte na estreita fronteira entre REALIDADE DA VIDA e FICçãO ARTíSTICA - tudo isto tornou negligenciáveis os escrúpulos do início de nosso século, do período do simbolismo e do "Art nouveau". A alternativa "arte autônoma de estrutura cerebral ou perigo de naturalismo" deixou de ser a única possibilidade. Se o teatro, em seus momentos de fraqueza, sucumbiu ao organismo humano vivo e a suas leis, é porque aceitou, automática e logicamente, esta forma de imitação da vida que constituem sua representação e sua re-criação. Ao contrário, nos momentos em que o teatro era suficientemente forte e independente para permitir-se libertar-se dos constrangimentos da vida e do homem, produzia os equivalentes artificiais da vida que, sujeitando-se à abstração do espaço e do tempo, eram ainda mais vivos e mais aptos a atingir a absoluta coesão. Em nossos dias essa alternativa na escolha perdeu tanto seu significado quanto seu caráter exclusivo. Pois criou-se uma nova situação no domínio da arte e existem novos quadros de expressão. O surgimento do conceito de REALIDADE "Já PRONTA" retirada do contexto da existência tornou possíveis sua ANEXAçãO, sua INTEGRAçãO na obra de arte através da DECISãO, do GESTO e do RITUAL. E isto é presentemente muito mais fascinante e mais poderosamente inserido no real que qualquer entidade abstrata ou artificialmente elaborada, ou que esse mundo surrealista do "MARAVILHOSO" de André Breton. Happenings, "eventos" e "instalações" reabilitaram impetuosamente regiões inteiras da REALIDADE até então desprezadas, desembaraçando-as do peso de suas destinações terra a terra. Esse DESLOCAMENTO da realidade pragmática - essa "suspensão" para fora das fronteiras da prática cotidiana - puseram em movimento a imaginação dos homens muito mais profundamente que a realidade surrealista do sonho onírico. Foi isto que finalmente fez desaparecer toda importância aos temores de ver o homem e sua vida interferir no plano da arte.
5. Da "realidade imediata" do happening à desmaterialização dos elementos da obra de arte. Portanto, como toda fascinação, também esta tornou-se, depois de certo tempo, CONVENçãO pura - universalmente, tolamente, vulgarmente utilizada. Essas manipulações quase rituais da realidade, ligadas à contestação do ESTADO ARTíSTICO e do LIGAR reservado à arte, começaram, pouco a pouco, a tomar um sentido e um significado diferentes. A PRESENçA material, física do objeto e o TEMPO PRESENTE no qual podem figurar unicamente a atividade e a ação aparentemente atingiram seus limites e tornaram-se um entrave. ULTRAPASSá-las significava privar essas relações de sua IMPORTâNCIA material e funcional, ou seja, de sua possível APREENSãO. (Dado que trata-se aqui de um período muito recente, ainda não terminado, fluido, as considerações seguintes referem-se e ligam-se a minhas próprias atividades criativas.) O objeto (A Cadeira, Oslo, 1970) tornava-se vazio, desprovido de expressão, de encadeamentos, de pontos de referência, de sinais de uma intercomunicação voluntária, de sua mensagem; ele estava orientado para nenhum lugar e tornava-se um engodo. Situações e ações permaneciam encerradas em seu próprio CIRCUITO, ENIGMáTICAS (O Teatro impossível, 1973). Em minha manifestação intitulada Cambriolage (Furto) deu-se uma INVASãO ilegítima sobre o terreno em que a realidade tangível encontrava seus prolongamentos INVISíVEIS. Cada vez mais distintamente se precisa o papel do PENSAMENTO, da MEMóRIA e do TEMPO.
6. Recusa da ortodoxia do conceptualismo e da "vanguarda oficial das massas" Impõe-se a mim cada vez com mais força a convicção de que o conceito de VIDA não pode ser reintroduzido em arte senão pela AUSêNCIA DE VIDA no sentido convencional (ainda Craig e os simbolistas). Esse processo de DESMATERIALIZAçãO instalou-se em minha atividade criativas, evitando-se entretanto toda a panóplia ortodoxa da lingüística e do conceptualismo. é certo que essa escolha foi em parte influenciada pelo gigantesco engarrafamento que emporcalhou esse caminho agora oficial e que constitui, infelizmente, o último trecho da grande estrada DADAíSTA coberta de cartazes com seus slogans ARTE TOTAL, TUDO é ARTE, TODO MUNDO é ARTISTA, A ARTE ESTá NA VOSSA CABEçA, etc. Eu não gosto dos engarrafamentos. Em 1973 escrevi o esboço de um novo manifesto, que leva em conta essa falsa situação. Eis o seu começo: "Depois de Verdun, do Cabaret Voltaire e da Privada de Marcel Duchamp, quando o "fato artístico" foi encoberto pelo estrondo da Gorda Bertha, a DECISãO tornou-se a única oportunidade que resta ao homem de ousar qualquer coisa recentemente ou ainda hoje inconcebível. Ela tem sido há muito tempo o estimulante primeiro da criação, uma condição e uma definição da arte. Nestes últimos tempos milhares de indivíduos medíocres tomam, sem escrúpulos nem reticências de nenhuma espécie, decisões. A decisão tornou-se um fato banal e convencional. O que era um caminho perigoso tornou-se agora uma auto-estrada cômoda - segurança e sinalização hipermelhoradas. Guias, manuais, placas de sinalização, cartazes, centros, corporações artísticas - eis o que garante a perfeita criação artística. Somos testemunhas de um LEVANTE EM MASSA de comandos de artistas, de combatentes de rua, de artistas de choque, de artistas operários, de escrevinhadores, de caixeiros viajantes, de saltimbancos, de chefes de escritórios e de agências. Nesta auto-estrada já oficial, o tráfico, que ameaça afogar-nos sob uma onda de garatujas insignificantes e de pretensos coups de théâtre, vai crescendo a cada dia. é preciso abandoná-la o quanto antes. Mas isto não é tão fácil! Ainda mais que está no seu apogeu - cega e avalizada pelo altíssimo prestígio do INTELECTO, recobrindo tanto os sábios quanto os tolos - a ONIPRESENTE VANGUARDA..."
7. Sobre os caminhos secundários da vanguarda oficial. Os manequins fazem sua aparição Minha recusa obstinada em não aceitar as soluções do conceptualismo, embora elas me parecessem a única saída para o caminho encetado, conduziu-me a colocar, tentando circunscrevê-los, os acontecimentos relatados acima e que marcaram a última fase de minha atividade criativa sobre caminhos secundários suscetíveis de me oferecer maiores oportunidades de desembocar no DESCONHECIDO! Uma tal situação, mais que qualquer outra, deu-me confiança. Todo período novo, sempre, começa por tentativas sem grande significação, pouco notáveis, como que em surdina, não tendo grande coisas em comum com o caminho já traçado; tentativas privadas, íntimas, eu diria mesmo pouco confessáveis. Obscuras em todo caso. E difíceis! Tais são os momentos mais fascinantes e mais carregados de sentido da criação artística. E subitamente me senti interessado pela natureza dos MANEQUINS. O manequim em minha encenação de La Poule d'eau, de Witkacy (1967) e os manequins em Les Cordonniers (Os Sapateiros), de Witkacy (1970) tinham um papel bem específico; constituíam uma espécie de prolongamento imaterial, alguma coisa como um óRGãO COMPLEMENTAR do ator que era seu "proprietário". Quanto aos que utilizei em grande número na encenação da Balladyna, de Slowacki, eles constituíam os DUPLOS das personagens vivas, como se fossem dotados de uma CONSCIêNCIA superior, atingida "depois da consumação de sua própria vida". Esses manequins já estavam visivelmente marcados com o selo da MORTE.
8. O manequim como manifestação da realidade mais trivial. Como um procedimento de transcendência, um objeto vazio, um engodo, uma mensagem de morte, um modelo para o ator O manequim que utilizei em 1967 no teatro Cricot 2 ( La Poule d'eau) foi, depois d'O Peregrino eterno e da Embalagens humanas, o próximo dos meus personagens a entrar de maneira absolutamente natural em minha Coleção como outro fenômeno a apoiar esta convicção ancorada em mim há muito tempo de que somente a realidade mais trivial, os objetos mais modestos e os mais desprezados são capazes de revelar em uma obra de arte seu caráter específico de objeto. Manequins e figuras de cera sempre existiram, mas como que mantidos à distância à margem da cultura aceita, nas bancas dos mercados, nas barracas duvidosas dos andarilhos, longe dos esplêndidos templos da arte, vistos como curiosidades desprezíveis, boas apenas para abastecer o gosto da ralé. Mas por esta razão são eles - muito mais que as acadêmicas peças de museu - que podem, no tempo de um breve olhar, levantar uma ponta do véu. Os manequins têm também um odor de pecado - de transgressão delituosa. A existência dessas criaturas configuradas à imagem do homem de uma forma quase sacrílega e quase clandestina, fruto de procedimentos heréticos, traz a marca desse lado obscuro, noturno, sedicioso da trajetória humana, o cunho do crime e dos estigmas da morte enquanto fonte de conhecimento. A impressão confusa, inexplicada, de que é pelo artifício de uma criatura com falaciosos aspectos da vida, mas privada de consciência e de destino, que a morte e o nada transmitem sua inquietante mensagem - é isto que causa em nós esse sentimento de transgressão, ao mesmo tempo recusa e atração. Inclusão no index e fascinação. O ato de acusação esgotou todos os argumentos. O primeiro a prestar as costas aos ataques foi o próprio mecanismo dessa ação, considerada levianamente como um fim em si mesma e depois relegada entre as formas medíocres da criação artística, no mesmo saco que a imitação, a ilusão enganosa destinada a abusar do espectador como os truques do manipulador de feira, a utilização de ingênuos artifícios que escapam aos conceitos da estética, o uso fraudulento das aparências, as práticas de charlatão. E ainda por cima acrescentaram-se ao processo as acusações de uma filosofia que, desde Platão e com freqüência ainda hoje em dia, designa como finalidade da arte revelar o Ser e sua espiritualidade ao invés de patinhar na concreção material do mundo, nessa trapaça das aparências, que representam o mais baixo nível da existência. Não acho que um MANEQUIM (ou uma FIGURA DE CERA) possa substituir, como queriam Kleist e Craig, o ATOR VIVO. Isto seria fácil e excessivamente ingênuo. Esforço-me por determinar os motivos e a destinação dessa entidade insólita surgida inopinadamente em meus pensamentos e em minhas idéias. Sua aparição concorda com esta convicção cada vez mais forte em mim de que a vida não pode ser exprimida em arte senão pela falta de vida e pelo recurso à morte, através das aparências, da vacuidade, da ausência de qualquer mensagem. Em meu teatro um manequim deve tornar-se um MODELO que encarna e transmite um profundo sentimento da morte e da condição dos mortos - um modelo para o ATOR VIVO.
9. Minha interpretação da situação descrita por Craig. A aparição do ator vivo, momento revolucionário. A descoberta da imagem do homem Busco minhas considerações nas origens do teatro; mas elas aplicam-se de fato ao conjunto da arte atual. Pode-se muito bem pensar que a descrição, imaginada por Craig, das circunstâncias nas quais surgiu o ator, e que traz em si mesma uma análise terrivelmente acusadora, deveria servir a seu autor de ponto de partida para suas idéias concernentes à "SUPER-MARIONETE". Embora eu seja um admirador do soberbo desprezo professado por Craig e de suas diatribes apaixonadas - sobretudo quando estamos confrontados com o total declínio do teatro contemporâneo - devo entretanto, ao mesmo tempo que faço minha a primeira parte de seu credo, na qual ele nega ao teatro institucional qualquer razão de existir no plano da arte, tomar outra posição frente às bem conhecidas soluções a que chegou a respeito do ator. Pois o momento em que um ATOR surgiu pela primeira vez perante uma PLATéIA (para empregar o vocabulário atual) parece-me ser, bem ao contrário, um momento revolucionário e de vanguarda. Vou mesmo tentar compor e fazer "entrar na história" uma imagem oposta, na qual os acontecimentos terão uma significação inversa: Eis que do círculo comum dos costumes e dos ritos religiosos, das cerimônias e das atividades lúdicas sai ALGUéM, tendo tomado a decisão temerária de destacar-se da comunidade cultural. Não era movido nem pelo orgulho (como em Craig) nem pelo desejo de atrair sobre si a atenção de todos. Solução excessivamente simples. Eu o vejo antes como um rebelde, um objetor, um herético, livre e trágico, por ter ousado permanecer só com sua sorte e seu destino. E se acrescentamos "com seu PAPEL", teremos diante de nós o ATOR. A revolta aconteceu sobre o terreno da arte. Este acontecimento, ou antes esta manifestação, provavelmente provocou uma grande perturbação nos espíritos e suscitou opiniões contraditórias. Com toda certeza este ATO foi julgado como uma traição às antigas tradições e às práticas do culto; viu-se nele uma manifestação de orgulho profano, de ateísmo, de perigosas tendências subversivas; aos gritos falou-se em escândalo, em amoralidade, em indecência; olhou-se o homem com desprezo como a um bufão grosseiro, um cabotino, um exibicionista, um depravado. O próprio ator, relegado para fora da sociedade, terá feito tanto inimigos cruéis quanto fanáticos admiradores. Opróbrio e glória conjugados. Seria um formalismo ridículo e superficial querer explicar esse ato de RUPTURA através do egoísmo, do apetite de glória ou de uma queda inata para o exibicionismo. Deve ter sido uma questão mais considerável, uma COMUNICAçãO de importância capital. Tentemos imaginar esta situação fascinante:
FACE àqueles que tinham permanecido deste lado, um HOMEM postou-se EXATAMENTE semelhante a cada um deles e entretanto (em virtude de alguma "operação" misteriosa e admirável) infinitamente DISTANTE, terrivelmente ESTRANGEIRO, como que habitado pela morte, separado deles por uma BARREIRA que por ser invisível não deixava de ser apavorante e inconcebível, assim como o sentido verdadeiro e a HONRA não podem nos ser revelados senão pelo SONHO.
E é assim que sob a luz deslumbrante de um clarão eles percebem subitamente a IMAGEM DO HOMEM, aguda, tragicamente clownesca, como se o vissem pela PRIMEIRA VEZ, como se acabassem de ver a SI MESMOS. Este foi seguramente um conhecimento que poder-se-ia qualificar de metafísico. Essa imagem viva do HOMEM saindo das trevas, levando sua trajetória adiante, constituía um MANIFESTO, irradiante, de sua nova CONDIçãO HUMANA, somente HUMANA, com sua RESPONSABILIDADE e sua CONSCIêNCIA trágica, avaliando seu DESTINO com uma escala implacável e definitiva, a escala da MORTE. Foi dos espaços da MORTE que veio esse MANIFESTO revelador que provocou no público (utilizemos um termo atual) esse conhecimento metafísico. Os instrumentos e a arte desse homem, o ATOR (para empregar ainda nosso próprio vocabulário), ligavam-se também à MORTE, a sua trágica e horrífica beleza. Devemos dar à relação ESPECTADOR/ATOR sua significação essencial. Devemos fazer renascer esse impacto original do instante em que um homem (ator) surgiu pela primeira vez perante outros homens (espectadores), exatamente semelhante a cada um de nós e entretanto infinitamente estrangeiro, além dessa barreira que não pode ser ultrapassada.
10. Recapitulação
Embora se possa levantar suspeitas, e mesmo acusar-nos de nutrir escrúpulos fora de propósito expulsaremos nossos preconceitos e nossos medos inatos e, a fim de melhor definir a imagem no interesse de eventuais conclusões assentaremos as balizas dessa fronteira que tem um nome:

A CONDIçãO DA MORTE
porque ele constitui o ponto de referência mais avançado que jamais foi ameaçado por nenhum conformismo da CONDIçãO DO ARTISTA E DA ARTE ...essa relação particular desorientadora e sedutora a um só tempo entre os vivos e os mortos que, há pouco, quanto eles ainda estavam vivos não dava nenhum lugar a inesperados espetáculos a inúteis divisões, à desordem Eles não eram diferentes e não tomavam grandes ares e em razão desta característica aparentemente banal mas, como veremos, muito importante eles eram simplesmente, normalmente, respeitosamente não perceptíveis E eis que agora, subitamente do outro lado, perante nós eles despertam a surpresa como se nós os víssemos pela primeira vez expostos em exibição, em uma cerimônia ambígua: honrados e rejeitados a um só tempo irremediavelmente outros e infinitamente estrangeiros, e ainda: desprovidos, de alguma forma, de toda significação não sendo mais levados em conta sem a menor esperança de ocupar um lugar inteiramente à parte das texturas de nossa vida que não são acessíveis, familiares, inteligíveis senão para nós mesmos mas para eles desprovidas de sentido Se estamos de acordo em que o traço dominante dos homens vivos é sua aptidão e sua facilidade de estabelecer entre si múltiplas relações vitais é somente perante os mortos que surge em nós a tomada de consciência súbita e surpreendente que essa característica essencial dos vivos torna-se possível por sua falta total de diferenças por sua banalidadepor sua identificação universal que destrói impiedosamente toda ilusão diferente ou contrária por sua qualidade comum, aprovada sempre em vigor de permanecer indiscerníveis Somente os mortos se tornam perceptíveis (para os vivos) obtendo assim, por este alto preço seu estatuto próprio sua singularidade sua SILHUETA radiosa quase como no circo

In "Le Théâtre de la Mort ". Editions L'Age d'Homme, Lausanne , 1977, p. 215-224. Tradução de Roberto Mallet.

sábado, 23 de junho de 2007

COMO FAZER LEITURAS DRAMATIZADAS DE TEXTOS - ANITA MALUFFE

Quem já assistiu a uma leitura dramática de um texto certamente teve a impressão de que sua realização é muito simples. No entanto, para que seja uma boa leitura e realmente transmita a intenção do texto, atraia público e produza um debate posterior, é preciso que seja muito bem organizada. Aos grupos, entidades e associações que desejam realizar leituras dramáticas, tentaremos passar os pontos mais importantes para um bom resultado do evento:
Seleção de textos - Tudo começa pela seleção dos textos. Devem ser teatrais e de qualidade. Textos literários jamais produzem boas leituras. Os temas devem oferecer uma estrutura dramática e, de preferência, apresentar temáticas que interessem à comunidade. Caso sejam selecionados textos para um ciclo de leituras, é muito interessante mesclar peças de autores consagrados inéditos, nacionais e para para poder traçar parâmetros comparativos. O elo entre elas deve ser a qualidade. A Sociedade Lítero Dramática Gastao Tojeiro, além das leituras de textos inéditos de autores nacionais periodicamente tem realizado ciclos específicos, como de clássicos da dramaturgia moderna universal. Atualmente, estamos promovendo o ciclo "A comédia através dos tempos”, que até o final do ano, nas últimas segundas-feiras do mês estaremos lendo os autores mais representativos no gênero, a fim de estudar e discutir a comédia universal e seus grandes comediógrafos.

Cronograma - Se for realizado um ciclo de leituras, é importante traçar um cronograma, sejam elas apresentadas durante uma semana, um mês etc. Nossos ciclos de leituras, por exemplo, têm transcorrido de março a dezembro com cronograma para, no mínimo, seis meses de leituras.

Direção - A escolha do diretor deve ser muito cuidadosa porque dirigir leituras é muito diferente de dirigir montagens. A leitura exige do diretor uma atenção especial para que possa passar, apenas por palavras e poucos gestos, a intenção do autor. Já aconteceu de bons diretores, acostumados com efeitos especiais e montagens exuberantes, atrapalharem-se quando na direção de uma leitura pública. Nas leituras, muitas vezes as rubricas e algumas sutis adaptações são imprescindíveis para a compreensão do texto.
Elenco - Os atores não têm que ser selecionados necessariamente pelo tipo físico porque o importante não é o que se vê, mas sim o que se ouve. É quase um processo de radionovelas, em que as emoções são passadas apenas pela voz. Leituras, portanto, requerem ensaios. Somente atores muito experientes conseguem captar o texto e transmitir essa emoção numa primeira leitura. Os demais devem ensaiar, pontuar as pausas, as respirações etc.

Rubricas - Apesar de extremamente importantes na leitura e auxiliarem na compreensão do texto, as rubricas devem ser selecionadas para não interromper o ritmo da peça. Rubricas excessivas comprometem o desenvolvimento do texto. É preciso um perfeito equilíbrio.
Ritmo - Leituras devem ser ágeis, mais ágeis que a representação porque não tem movimento.
Objetos cênicos - Devem ser evitados objetos nas mãos dos atores porque como eles estão segurando o texto estes só atrapalham.

Luz e som - Uma leitura pode perfeitamente ser realizada sem efeitos de luz e som. Em nossas apresentações, os efeitos de luz são bem simples, limitando-se a poucos refletores, e o som é obtido por um gravador com amplificadores.

Programa - Quando a leitura é pública, um programinha simples feito em computador, em preto e branco: é interessante por registrar o evento. Costumamos colocar a ficha técnica da peça e um "curriculum" resumido do autor.

Leitura propriamente dita – Antes de iniciar a leitura, o ideal é fazer uma apresentação do autor, do diretor e do elenco. Se o autor é conhecido, fazer uma exposição sobre seus trabalhos, falar sobre o período no qual a peça foi escrita, qual sua importância histórica e comprometimento social, onde foi apresentada anteriormente e outras informações consideradas interessantes e enriquecedoras.

Debates - Após a leitura, os debates são importantes, principalmente quando o texto é inédito, porque apontam as falhas e oferecem ao autor a oportunidade de melhorá-lo. Nossa experiência demonstrou que o debate enriquece o universo do autor e dos participantes. Muitos dos autores, ao perceberem falhas dos textos, acabaram por reescrevê-los, e peças medianas tornaram-se peças boas que inclusive foram montadas e obtiveram sucesso comercial. Se o autor for consagrado, o debate é útil para colocar em discussão a obra, sua importância e o que ele deseja transmitir.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

TREINO DAS EMOÇÕES - TATIANA BELINKY

Eu sempre convivi com teatro, meus pais eram gente chegada a uma cultura e eu desde pequenininha conheci teatro e até estreei como atriz aos quatro anos de idade, eu era uma mosca. Nossos pais nos levavam, meu irmão e eu, para ver teatro infantil e para ópera e para opereta e para teatro adulto, teatro sempre fez parte da nossa vida. Falava-se muito de teatro, eu lia muito teatro, eu comecei a ler com quatro anos, eu lia poesia, contos, enfim, tudo o que era ligado à literatura e essas coisas. Chegamos no Brasil sem a língua. Português foi minha quarta língua, eu aprendi rapidinho. Mas não havia muita coisa para crianças, e o que havia era proibido para crianças. Nunca sonhamos uma coisa dessas na Europa. Os pais levavam as crianças para teatro, fazia parte da vida. Não precisava ser censurado ou proibido para isso ou para aquilo. Então, durante alguns anos não tive teatro aqui, a não ser brincar de teatro na escola, brincar de teatro em casa. Eu sempre escrevi. Quando eu cheguei aqui, com dez anos, tinha que contar as impressões e as coisas todas, o mundo que eu vi aqui, então eu escrevia muita carta, para avô, avó, primos, tios, além disso eu também, mesmo antes de vir pra cá, já tinha um diário. Eu brinco muito, eu não me levo muito a sério e não quero coisas solenes. Ensinar coisas é na escola. Eu quero distrair, divertir e mostrar coisas bonitas, quer dizer, com estética e ética. E brincadeira, senso de humor, é fundamental, assim como poesia é fundamental. E eu nunca me afastei disso. Eu lia muitos livros, encontrei um rapaz (Julio Gouveia, que viria a se tornar marido de Belinky e seu parceiro em teatro infanto-juvenil) que lia muitos livros, saiu um casamento que era o casamento de duas estantes. E ele também gostava muito de teatro.E nosso namoro era muita conversa, teatro, cinema, poesia. Ele também era poeta, escrevia muito bem, então sempre estive em contato com literatura, poesia e teatro, teatro lido e teatro assistido. Começamos a fazer teatro para crianças em 1948, começou como uma brincadeira, tínhamos um grupo de amadores muito bom (o TESP - Teatro-Escola São Paulo). Fizemos uma estréia extraordinária, por acaso no Teatro Municipal, com uma adaptação do Peter Pan, que o Julio escreveu. Gostaram tanto que a Secretaria de Cultura da Prefeitura nos convidou imediatamente para fazer teatro todos os fins de semana para os teatros da Prefeitura, para as crianças. Em todos os teatros que havia (e havia muitos, mas depois foram derrubados, depois foram construídos outros) a gente levava a peça nos fins de semana, começando no centro até os bairros, até lugares onde quase nem havia teatro, em cinemas, clubes. Isso foi de 48 até 51. Em 52, pediram para nós levarmos a peça que estávamos mostrando no teatro para o estúdio (para a TV), como presente de Natal para as crianças paulistanas. Depois pediram mais. Começamos um programinha de vinte minutos, chamado Fábulas Animadas, que eram fábulas russas, alemãs, francesas, brasileiras, histórias de bichos. Aí já era eu quem escrevia. Porque o Julio disse "escreva" e eu "mas eu nunca escrevi teatro". Ele disse: "mas você sabe o que é teatro, escreva!". E eu tinha lido muito teatro, assistido muito teatro. E lendo teatro, eu sabia como é que se escreve teatro, como se monta diálogo, como se dá uma rubrica, eu sabia, eu conhecia teatro. Tinha o teatro passado na TV, teleteatro. E para descobrir como é que funciona? Porque teatro é uma coisa, agora, televisão, naquele tempo, ninguém nem sabia o que era. E nós percebemos que era teatro o que nós fazíamos, mas era teatro e cinema ao mesmo tempo. A idéia nossa era promover leitura. Leitura por intermédio de teatro. Teatro é uma coisa muito boa, muito importante para a criança. Acho que escrever para criança, seja livro, seja teatro, seja o que for, ou é muito fácil ou é impossível. Ou você tem contato com criança, você tem a criança dentro de você, ou não. Forçar, impor regras, coisas assim, não fica teatro, fica aulinha chata. Criança é criança. É só lhes oferecer, lhes dar, expor a criança aos livros, expor o livro à criança, dar espetáculos bons, inteligentes, com estética e ética, sem dedo em riste, sem lição de moral. Deve ser prazer, lazer, divertimento. As crianças são muito espertas, elas entendem tudo: Molière, e até alguma coisa de Shakespeare. Romeu e Julieta não há criança que não entenda e é uma tragédia. Mas e daí? Eu tenho algumas histórias tristes, de propósito. Como dizia o Julio (Gouveia), que era psiquiatra, terapeuta, isso é o treino das emoções para a vida real. (Escrever teatro) é uma responsabilidade muito grande. Porque se você tem uma história, que é contada pelo espetáculo, e que tem um conteúdo interessante, construtivo, então, se você fizer um bom espetáculo, esteticamente bom, ele vai funcionar muito bem. Porém, se a história não for tão positiva no resultado (tem que ter todas as emoções) e for bem feita, pior. Porque aí passa uma mensagem ruim. Agora, pelo contrário, uma boa história mal representada cai no vazio. Uma boa história tem que ser bem representada. Criança quer emoção, não quer uma coisa plana, chata, de dedo em riste. É o treino das emoções. Essas coisas muito direcionadas, didáticas, deixa para a escola, porque como diversão é chato. É chato e não desenvolve o senso estético, o senso poético, o senso de humor. Para teatro eu recentemente não tenho escrito muito. Fiz umas duas ou três peças nos últimos anos. Eu escrevia furiosamente para teatro. Mas peças minhas estão sempre por aí, em cartaz. Teatro não envelhece, não é? A não ser que seja uma idéia mofada. Mas uma boa idéia não envelhece, além do que o público se substitui. Eles crescem e daí já vem outra geração.

CLOWN - FEDERICO FELLINI

O clown é como a sombra

Tenho sob os olhos, entre outras muitas, uma definição do clown feita por meu conterrâneo Alfredo Panzini, no Diccionario Moderno:
"CLOWN - palavra inglesa (pronuncia-se cláun) que quer dizer rústico, rude, torpe, indicando depois quem com artificiosa torpeza faz o público rir. É o nosso palhaço."
Mas também aqui existe a mesma miserável diferença do termo estrangeiro que enobrece a coisa. O palhaço é mais de feira e praça, o clown, de circo e palco. Um bom acrobata é um clown, isto é, quase um artista, e julgará imprópria e ofensiva a expressão palhaço. Mas clown designa também o palhaço. O próprio Carducci, defensor do vernáculo, nas prosas polêmicas de Confessioni e Bataglie, capítulo Ça ira, não desdenha a palavra.
Neste tempos de nacionalismo, que direi eu? Bem, o clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós.
É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e enganador. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê a sua imagem torpe. É a sombra.
O clown sempre existirá. Pois está fora de cogitação indagar se a sombra morreu, se a sombra morre.
Para que ela morra, o sol tem de estar a pique sobre a cabeça. A sombra desaparece e o homem, inteiramente iluminado, perde seus lados caricaturescos, grotescos, disformes. Diante duma criatura tão realizada, o clown, entendido no aspeto disforme, perderia a razão de existir. O clown, é evidente, não teria sumido, apenas seria assimilado. Noutras palavras, o irracional, o infantil, o instintivo já não seriam vistos com o olhar deformador que os torna informes.
Por acaso São Francisco não definiu a si mesmo como jogral de Deus?
Lao Tsé afirmava: "Quando produzas em pensamento, te ri dele."


O branco e o augusto

Quando digo o clown, penso no augusto. Com efeito, as duas figuras são o clown branco e o augusto. O primeiro é a elegância, a graça, a harmonia, a inteligência, a lucidez, que se propõem de forma moralista, como as situações ideais, únicas, as divindades indiscutíveis. Eis que em seguida surge o aspeto negativo da questão. Pois dessa forma o clown branco se converte em Mãe, Pai, Professor, Artista, o Belo, em suma, no que se deve fazer.
Então o augusto, que devia sucumbir ao encanto dessas perfeições, se não fossem ostentadas com tanto rigor, se rebela. Vê as lantejoulas cintilantes, mas a vaidade com que são apresentadas as torna inalcançáveis. O augusto, que é a criança que faz sujeira em cima, se revolta ante tanta perfeição, se embebeda, rola no chão e na alma, numa rebeldia perpétua.
Essa é a luta entre o orgulhoso culto da razão, onde o estético é proposto de forma despótica, e o instinto, a liberdade do instinto.
O clown branco e o augusto são a professora e o menino, a mãe e o filho arteiro, e até se podia dizer que o anjo com a espada flamejante e o pecador. São, em suma, duas atitudes psicológicas do homem, o impulso para cima e o impulso para baixo, divididos, separados.
O filme [I Clowns] termina com as duas figuras se encontrando e desaparecendo juntas. Por que comove essa situação? Porque as duas figuras encarnam um mito que está dentro de cada um de nós - a reconciliação dos opostos, a unidade do ser.
A dose de dor que existe na guerra contínua entre o clown branco e o augusto não se deve às músicas nem a nada parecido, mas ao fato de presenciarmos a algo que se liga à nossa própria incapacidade de conciliar as duas figuras. Com efeito, quanto mais procures obrigar o augusto a tocar violino, mais dará soprinhos com o trombone. O clown branco ainda pretenderá que o augusto seja elegante. Mas quanto mais autoritária seja essa intenção, mais o outro se mostrará mal e desajeitado.
É o apólogo de uma educação que procura pôr a vida em termos ideais e abstratos. Mas Lao Tsé dizia com acerto: Quando produzas um pensamento (= clown branco), te ri dele (=clown augusto).


Outra versão do par

Neste ponto, também podia citar a famosa antítese popular chinesa entre ying e yang, o frio e o sol, a fêmea e o macho, todos os possíveis contrastes. Podia-se falar de Hegel e da dialética, acrescentar que os augustos são, mais justamente, uma imagem subproletária do pátio dos milagres, com desnutridos, disformes, marginais, capazes talvez de revoltas, não de revoluções. É provável que o povo sempre os tenha tratado com confiança por causa de sua condição miserável, sentindo-se familiar ao abismo.
Os Fratellini foram os que introduziram um terceiro personagem, o "contre-pitre", parecido ao augusto, mas que se aliava ao patrão. Era o vigarista de rua, o espião, alcagüete da polícia, o liberado a se mover nas duas zonas, a meio caminho da autoridade e do delito.
Com exceção de François Fratellini, que fazia um aéreo clown branco, cheio de graça e amabilidade, incapaz de usar o tom acre da gozação para um mais fraco, todos os clowns brancos eram homens muito duros. Diz-se que Antonet, um afamado clown branco, fora de cena nunca dirigiu a palavra a Beby, que era o seu augusto. O personagem influenciava o homem e vice-versa. Uma das regras do jogo é que o clown branco tem de ser malvado. Ele dá bofetadas.
O augusto: - Tenho sede.
O clown branco: - Tem dinheiro?
O augusto: - Não.
O clown branco: - Então não tem sede.
Outra tendência do clown branco é explorar o augusto, não apenas como objeto de burla, mas como serviçal. Neste ponto, é característico este início: - Não tens que fazer nada, eu faço tudo. - E o clown branco manda o augusto pegar as cadeiras, pondo-lhe a fela sob o traseiro.
O clown branco é um burguês, que de entrada procura surpreender com sua aparência de rico, poderoso, maravilhoso. O rosto é branco, espectral, franze as sobrancelhas, a boca é assinalada por um só traço, duro, antipático, frio, desigual. Os clowns brancos sempre competiram para ficar com o traje mais luxuoso na luta dos figurinos. Célebre foi Theodore, que possuía uma roupa para cada dia do ano.
O augusto, pelo contrário, faz um tipo único que não muda nem pode mudar de roupa. É o mendigo, o menino, o esfarrapado...
A família burguesa é uma junta de clowns brancos, em que a criança se vê relegada à condição de augusto. A mãe diz: Não faças isso, não faças aquilo... Quando se convidam os vizinhos e se pede à criança que diga uma poesia - Mostra a esses senhores como... - é uma típica situação de circo.


Ser augusto é bom para a saúde


O clown branco assusta as crianças por representar o dever ou, empregando uma palavra na moda, a repressão.
A criança se identifica de saída com o augusto, na medida em que esse se parece com um patinho feio ou um cachorro e é maltratado, e por isso quebra os pratos, se retorce no chão, se atira baldes d'água no rosto. É o que a criança gostaria de fazer e os clowns brancos, os adultos, a mãe, a tia, impedem que faça.
No circo, através do augusto, a criança pode imaginar que faz tudo o que está proibido, se vestir de mulher, armar surpresas, gritas, dizer em voz alta o que pensa.
Aqui ninguém te repreende. Pelo contrário, te aplaudem.

(...)

Minha cidadezinha se transforma num toldo

A chegada do circo durante a noite, na primeira vez que o vi, ainda criança, teve o cunho de uma aparição. Um mundo novo, não precedido por nada. Na noite anterior não existia e, na manhã seguinte, ali estava, diante da minha casa.
De saída, pensei se tratar de um barco desproporcional. Logo a invasão, pois foi isso, uma invasão, estava ligada com algo de marinho, uma pequena tribo pirata.
Então, além do medo, o fascínio pelo clown, surgido desse clima marinho, foi definitivo.
Ao clown principal, Pierino, vi na pequena fonte, no dia seguinte à estréia. Poder tocá-lo, ser ele!
Totó, seu irmão, era um clown branco pobre. Trabalhava com uma camisa, uma gravata e umas calças de fustão.
Fazer rir me pareceu algo extraordinário, uma sorte, um privilégio.
No espetáculo de domingo à tarde, sem o toldo, perto da cadeia, os presidiários gritavam atrás das grades. Totó se dirigiu duas vezes a eles. Como um clown branco, fazia outros augustos infelizes.
Daquele momento em diante, minha cidade se transformou insensivelmente num grande toldo. Sob esse estavam os augustos, junto com o prefeito e o chefe fascista local vestidos de clowns brancos.
A insatisfação que os clowns brancos traziam, também se podia achar em figuras dementes da cidade, sobretudo os augustos, mais que os clowns brancos. Essas figuras eram lembradas em casa como bichos-papões. "Se não comes o espinafre, vais ficar como o Giudizio" - dizia minha mãe.
Giudizio era justamente um augusto de circo. Um capote militar cinco ou seis vezes maior que o corpo, sapatos de borracha branca até no inverno, uma manta de cavalo nos ombros. Mas possuía sua dignidade, como o mais esfarrapado dos palhaços. Fitava um Isotta Fraschini resplendente e, com uma bagana nos lábios presa por um alfinete, afirmava: "Nem de presente, ficaria com ele."
Mas o clown branco, com seu encanto lunar, a elegância noturna, espectral, lembrava a fria autoridade de algumas monjas diretoras de asilos; ou a certos fascistas pretenciosos, com as brilhantes sedas negras, os alamares dourados, o rebenque (como a pazinha do clown), os capotões, o fez e os adornos militares, homens ainda jovens com os rostos pálidos dos capangas, dos notívagos.

(...)

O jogo do clown branco e do augusto

O mundo, não só minha cidade, está povoado de clowns.
Quando estive em Paris para este filme, imaginei uma seqüência, que depois não rodei, em que, andando de táxi, de tanto falar nos clowns, podia-se vê-los na rua. Velhas ridículas com chapéus absurdos, mulheres com sacolas de plástico na cabeça para se proteger da chuva, chapéus e casacos que encolheram, homens de negócios com pastas típicas e um bispo, de aspeto embalsamado, sentado num auto junto ao nosso.
Se me imagino um clown, creio que sou um augusto. Mas também um clown branco ou, talvez, o diretor do circo. O médico de loucos que, por sua vez, enlouqueceu.
Continuemos a prova. Gadda era um belo augusto. Mas Piovene é um clown branco. Moravia, um augusto que desejaria ser branco. Melhor, é um Monsier Loyale, o diretor do circo, procurando conciliar as duas tendências e se manter num terreno objetivo, imparcial. Pasolini é um clown branco do tipo engraçado e sabichão. Antonioni é um augusto desses silenciosos, murchos, tristes. Parise pode ser tudo, um augusto mendigo, sempre meio bêbado, e também um clown branco impertinente, acerado, misógino, dos que esbofeteiam o augusto sem mesmo lhe dar uma explicação.
Picasso? Um augusto triunfal, presunçoso, sem complexos, que sabe fazer tudo e no fim é quem vence o clown branco. Einstein, um augusto sonhador, encantado, que não fala, mas no último instante tira, cândido, do bolso a solução do enigma proposto pelo atilado clown branco. Visconti, um clown branco de grande autoridade, cujo faustoso traje impressiona. Hitler, um clown branco. Mussolini, um augusto. Pacelli, um clown branco. Roncalli, um augusto. Freud, um clown branco. Jung, um augusto.
O jogo é tão certo que, se te vês por acaso ante um clown branco, tendes a ser um augusto, e vice-versa.
O chefe de produção da minha fita era um clown branco. Assim, os outros no convertíamos em augustos. Apenas a aparição de um clown branco mais ameaçador, o fascista, nos transformava também em clowns brancos, desde o momento em que lhe respondíamos, disciplinados, com a saudação romana.
Apenas a destrambelhada aparição de Giovannone, o augusto que assustava as camponesas lhes mostrando o membro como uma lebre morta, surpreso de conviver com esse inquilino que aceitava, nos mudava em clowns brancos quando lhe dizíamos: "Mas o que estás fazendo, Giovannone?"
Até na missa essa relação tinha lugar. Acontecia entre o sacerdote e alguns sacristães, que andavam entre os bancos da igreja interrrompendo o rito, com olhos apagados e alcoolizados, a pedir esmola.

(1) Este texto é um excerto do comentário que fez Fellini a seu filme I Clowns, feito para a televisão em 1970.

CARTA AO ATOR D.

Freqüentemente eu estive tocado pela ausência de seriedade no teu trabalho. O que não é falta de concentração ou boa vontade da tua parte. Mas que se exprime por duas atitudes. Primeiro de tudo, tem-se a impressão que teus atos não são ditados por uma convicção interior ou por uma necessidade inelutável que se manifestaria por exemplo na execução de um exercício, de uma improvisação ou de uma cena. Tu podes trabalhar estando concentrado, sem poupar-se, teu gestos podem ser tecnicamente precisos, mesmo assim tal jogo não parece menos vazio e eu não creio no que fazes. Teu corpo não diz se não uma coisa: "eu obedeço a uma ordem exterior". Os nervos, o cérebro, a coluna vertebral não estão engajados e só tua epiderme gostaria de fazer acreditar que tudo isso é vital para ti. Tu não experimentas por ti mesmo a importância do que queres fazer os espectadores acreditarem. Como podes assim fazer compreender ou admitir que o teatro é o lugar onde as convenções e os entraves sociais devem desaparecer a dar lugar a uma comunicação franca e absoluta. Tu, representante da coletividade, tu estás num lugar onde se manifesta a necessidade de cada um se sentir aceito, onde as humilhações, as experiências degradantes pelas quais tu passaste, teu cinismo, que é uma atitude de auto-defesa, teu otimismo, que é mesmo a irresponsabilidade e o teu sentimento de culpa aparecem ao lado da tua necessidade de amar, da tua nostalgia de um paraíso perdido procurado talvez no passado, na tua infância, no calor de alguém que te fez esquecer a angústia, num tempo que tu não te colocavas questões e onde exigias uma resposta. Todos os seres presentes nesta sala são tocados se, durante a representação, tu efetuas um retorno às tuas raízes, em direção a essas experiências humanas comuns que permanecem escondidas: verdadeiro laço humano que te liga aos outros. A segunda tendência que vejo em ti é o temor de encarar toda a seriedade desse trabalho: tu experimentas algo como uma necessidade de rir, de fazer pouco, de comentar com o que tu e teus camaradas executam. É como se quisesses fugir a responsabilidade que sentes em relação ao próprio trabalho e que consiste em estabelecer uma comunicação com os outros homens e assumir as consequências do que revelas. Tu tens medo da seriedade desse trabalho, de estar à margem do que é permitido: tem medo que isso seja sinônimo de fanatismo, de aborrecimentos ou de isolamento profissional. Mas num mundo onde os homens nos rodeiam não acreditam mais em nada ou fingem que creêm para ficarem tranqüilos, aquele que esmiúça dentro dele mesmo para se colocar questões sobre sua condição, sobre sua falta de ideais, sobre sua necessidade de vida espiritual, é tomado por um fanático ou por um ingênuo. Num mundo onde trapacear é a norma em vigor, aquele que procura a sua verdade é tomado por hipócrita. Acredito que não refletiste jamais sobre o fato de que tudo isso que liberas, dás forma ou completa no teu trabalho, é uma manisfestação de vida e merece ser olhada com respeito. Teus atos frente a coletividade de espectadores devem ser habitados da mesma força que marca a lâmina incandescente do carrasco ou daquela voz ardente do Sinai. Somente então teus atos poderão continuar a viver no espírito e no interior do espectador com aquela necessidade que provoca conseqüências imprevisíveis. Quando Dullin se encontrava no seu leito de morte, o rosto dele se contorcia, deformando-se segundo as máscaras dos grandes papéis que tinha vivido: Smerdiakov, Volpone, Richard III. Não era somente o homem Dullin que morria, mas também o ator e todas as etapas de sua vida. Se eu perguntar porque tu te tornaste ator, me responderás que queres te exprimir e te realizar. Mas o que significa realizar-se? Quem se realiza? O chefe de escritório Hansen que vive sua existência respeitável, sem aborrecimentos, jamais atormentado por questões que continuam sem resposta? Ou o romântico Gauguin que, após ter rompido com as normas socias, terminou sua existência na miséria de um pobre vilarejo polinesiano, Noa-Noa, onde ele acreditava ter reencontrado a liberdade perdida? Numa época em que a fé religiosa é vista como uma neurose, falta-nos a escala com a qual medir o sucesso ou fracasso da nossa vida. Quaisquer que tenham sido as motivações pessoais e não percebidas que te troxeram ao teatro, agora que tu entraste nessa profissão, deves encontrar um sentido que ultrapasse tua própria pessoa e que te situe socialmente frente aos outros. Não se pode preparar uma vida nova senão nas catacumbas. Aí está o lugar daqueles que, em nossa época, procuram um engajamento espiritual e não têm medo do difícil confronto. Isto supõe coragem: a maior parte das pessoas não têm necessidade de nós. Teu trabalho é uma forma de meditação social sobre ti mesmo, sobre a tua condição de homem numa sociedade e sobre os acontecimentos que tocam no mais profundo de ti através das experiências do nosso tempo. Cada apresentação nesse teatro precário que choca o pragmatismo cotidiano, pode ser a última, tu deves considerá-la como tal, como tua possibilidade de te tocar, dirigindo aos outros e conta pestada de teus atos, teu testamento. Se o fato de ser ator significa tudo isso para ti, então um novo teatro vai nascer, uma nova maneira de apreender a tradição, uma nova técnica. Uma relação nova se estabelecerá entre ti mesmo e os homens que à noite vêm te ver, porque eles têm necessidade de ti. Odin Theatret, desconhecido no Brasil, é radicado na Dinamarca e formado por atores de vários países. É considerado atualmente um dos grupos mais importantes do teatro ocidental, tanto pela coerência de proposta, onde teatro e modo de vida se confundem, como pelo rigor do seu método de trabalho, o que se reflete em suas apresentação. Sendo um grupo de teatro "radical", suas idéias e posturas são freqüentemente questionadas como sectárias, místicas etc... É indiscutível, contudo, sua contribuição ao moderno teatro mundial.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

GABRIELA RABELO - A DIREÇÃO EM TEATRO

Mário de Andrade equacionou lindamente a diferença entre os aspectos técnicos e os artísticos na criação da obra de arte: de um lado há o artesanato - que é o aspecto mais técnico da obra de arte -, que não só é ensinável como indispensável para quem se pretenda um artista bom. É impossível ser um artista bom sem saber manejar os instrumentos de que cada arte se serve, sem ser um bom artesão no seu ofício. Mas de outro lado há um aspecto da arte que é trágico porque é imprescindível desenvolver e não dá para ser ensinado: é a resposta individual do artista às questões que cada trabalho seu lhe coloca, Isso posto, fica evidente que - não há uma receita de como dirigir uma peça de teatro. Mas, se não há receita, há algumas leis gerais do teatro a que é imperioso obedecer. Neste artigo vamos falar um pouquinho de algumas delas. Desde já fica também estabelecido que aqui os termos diretor e encenador se equivalerão, embora se saiba que o termo encenador, na forma como é concebido em nossos dias, seja de origem recente. Mas a noção de encenação, entendida como a reunião numa só cabeça e numa só mão de todos os elementos constitutivos do espetáculo, é tão antiga quanto o próprio teatro, nasceu com ele. Foi com o desfiar dos anos que mudaram o papel e a importância do teatro na sociedade, e conseqüentemente as atribuições do encenador. Se verdade que em tempos passados a própria sociedade ajudava a "regular" a cena, em nossos tempos tão convulsionados, com uma multiplicidade de visões e perspectivas muito incertas, cabe ao encenador, em sua opinião individual e intransferível - porque formada a partir de sua história pessoal -, ser o regulador, o mediador entre a obra inicial (seja esta um texto já previamente escrito, um roteiro ou uma simples idéia que tomará corpo no decorrer dos ensaios) e o público. O nosso teatro hoje já não é mais um depositário ou o anunciador de 'Verdades humanistas e simbólicas válidas para todos"; nem é mais um reflexo de um modo análogo ao nosso, a ponto de nos enganar. Hoje em dia, o teatro é muito mais um campo de experimentação da intrincada vida que nos espera "lá fora", uma "propedêutica da realidade", como diz Bernard Dort. É preciso ainda salientar que a tarefa da direção mudará bastante dependendo do quadro onde o espetáculo teatral será criado: dentro de uma escola (e portanto perseguindo antes de tudo objetivos pedagógicos), por um grupo amador ou para enfrentar o mercado. A mudança de objetivos levará a mudanças de táticas. Mas os princípios que as nortearão serão os mesmos, pois se trata sempre da utilização da mesma linguagem: a teatral, Caberá ao diretor, independentemente da finalidade do seu trabalho:

l - ter uma visão geral da obra a ser encenada;
2 - coordenar, a partir dessa visão, o trabalho de todos os co-criadores do espetáculo (atores, cenógrafos, figurinista, iluminador, cenotécnico etc.).

Mas como o diretor adquire essa visão? Os caminhos são muitos, mas, inevitavelmente, terão que passar por:

a) leitura exaustiva da obra, de fora pra dentro e de dentro pra fora. Ou seja: ler a obra tentando "decifrar" o texto que está diante de seus olhos e também o que não está escrito mas que é sugerido. A leitura desse texto "submerso" é refeita durante todo o processo de ensaio, confirmando-se ou negando-se as opiniões anteriores. Tal leitura é feita isoladamente em conjunto, quer dizer, o diretor a faz sozinho, em sua casa, para se preparar e também preparar a leitura que será feita com todos os participantes do espetáculo. E assim, nesse vai e volta, a concepção do espetáculo irá sendo elaborada. É ele, o encenador, que deve conduzir o processo de discussão sobre o texto de forma aberta e democrática. Mas não pode nunca perder de vista a sua função: muitas vezes encontramos atores que executam um trabalho bastante razoável e que, no entanto, têm uma visão não muito abrangente da peça em que estão trabalhando. Se isso é possível para o ator, é totalmente impossível para o diretor, porque o trabalho de ambos é de natureza diferente: no do ator há uma grande dose de intuição (o que não dispensa o trabalho analítico via razão). Ele treina, inconsciente ou conscientemente essa forma de percepção. O diretor, não: seu trabalho parte sobretudo da apreensão consciente dos objetivos que quer alcançar e de uma atenção cuidadosa a tudo o que vem das pessoas envolvidas no trabalho. O diretor treina a percepção mais fina, mais sutil, aquela que denota nos pequenos detalhes, grandes possibilidades: mais do que a intuição é essa percepção que ele desenvolve. Não estou com isso querendo eliminar de todo a intuição como fonte de inspiração para o diretor. Estou apenas tentando delimitá-la. E a leitura tem também de ser de dentro para fora, ou seja, o diretor precisa tentar fazer seu (de todos) o texto lido, apoderando-se dele, procurando revelar, como se fosse o seu próprio autor, os caminhos que o mistério da criação percorreu, quer dizer, tornando consciente a parte inconsciente da criação artística (mas sempre tendo presente que esse é um projeto inesgotável. A arte - como o ser humano que a cria - habita o território do infinito, do irrevelado). Cada diretor usa um método próprio para conduzir essa fase de leitura: há os que pegam o texto e fazem leituras com os atores caminhando pelo palco, sem, no entanto, fixar os papéis. Cada dia é um ator diferente que lê o papel de x ou de y, Com isso, há uma multiplicidade de percepções das personagens e das relações que as determinam. Há os que se sentam junto com todo o elenco ao redor de uma mesa para que a peça seja lida, exaustivamente discutida e analisada, redividida em cenas e sequências que serão determinadas pelas análises de textos feitas. Há os que fazem uma leitura por tabela, ou seja, propondo jogos ou leituras paralelas ao tema do texto, como que preparando o terreno para o plantio definitivo da peca. Só então começam a le-la, mas ai já dentro do seu universo. Há os que misturam tudo isso. E ainda há muitos outros métodos. O que há de comum em todos eles e a procura de assenhoramento da peca, esse tomar posse física e espiritualmente do texto ou tema que será transposto para o palco.

b) Estudo do autor: o que significa essa obra dentro da obra geral do autor? E um tema reiterativo, o da peça a ser montada? Se sim, onde mais o autor tratou desse tema? Sob que óptica? Existe mais de uma versão do texto? Quais as mudanças efetuadas?

c) estudo do próprio tema: de que trata a peça? Da loucura? Da escravidão? Do amor inatingível? Estudar essas questões procurando ter uma opinião própria sobre elas. Comparar sua opinião à do autor da peça.

d) estudo do período histórico em que viveu o autor: se for contemporâneo, ter-se-á a facilidade de compartilhar com ele o tempo histórico. Mas sua visão de mundo, seus objetivos em teatro, serão os mesmos (não precisam ser, evidentemente)? Se for um autor de tempos passados, procurar saber o máximo possível sobre sua época para tentar decifrar o sentido que a obra que está sendo estudada possuía na época em que foi escrita. Isso não significa que devamos nos preocupar com a reconstituição histórica acima de tudo. O passado interessa, sobretudo porque nos explica. Afinal, somos resultado (não mecânico, evidentemente) dos tempos que nos antecederam.

Vem agora a "parte 2" da direção teatral: a colocação em cena.

Para alguns diretores, a ocupação do espaço segue paralela ao entendimento da peça: como foi dito anteriormente, os atores apreendem a peça deslocando-se pelo espaço cênico que vai sendo construído e ocupado junto coma descoberta da peça. Outros encenadores dividem claramente a montagem em duas fases:

l) entendimento da peça (ou roteiro, ou tema);
2) colocação em cena.

Também aqui não há regras estabelecidas. Pessoalmente acho que o melhor é ocupar a cena obedecendo à lógica da ação (do jeito mais stanislavskiano que se puder entender a lógica da ação). E como se obedece a essa lógica? Uma vez entendidas peça, cena, personagens, é deixar que os ator se movimentem livremente pelo palco a partir desse entendimento, sem nenhum preocupação de compor visualmente a cena. Essa tarefa caberá ao diretor, que estando fora do espaço cénico e partindo da mesma compreensão da peça, cena e personagem, irá interferindo no trabalho dizendo: "Fulano, se você se afastar, em vez de se aproximar, esta cena ficará mais clara. " ." Beltrano, experimente repetir a cena com a mesma intensidade, só que sem gritar e sem andar tanto pelo palco." etc. etc. Nessa fase o diretor é como um obstetra: depois de gerido, o espetáculo tem de ser dado literalmente à luz, É quando mais do que em qualquer outra ocasião, todas as antenas do diretor têm de ficar ligadas: tudo o que acontece é importante. E tem de avançar com grande acuidade e delicadeza. Não se pode esquecer que o ator é um artista extremamente vulnerável, Ele está lá no palco, com sua alma exposta. Cada personagem, com cada espetáculo, assemelha-se a um bebe que chega ao mundo. E o encenador tem de saber acolher essa criança, deixando-a forte, sadia, sem traumas, nas mãos do ator/mãe. Porque a criança/espetáculo (e o diretor não pode nunca esquecer isto: a natureza do trabalho teatral é coletiva) e fruto da união de todas as pessoas - artistas e técnicos - que se empenharam para seu nascimento. E quem embala o bebe, a luz dos refletores ou do sol, é o ator.